01 Fevereiro - Apaixonemo-nos pelos grandes modelos e comecemos a agir! (L 10) São José Marello
Mateus 5,1-12ª
Naquele tempo, 1Vendo Jesus as multidões, subiu ao
monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2e Jesus começou a
ensiná-los:
3”Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
4Bem-aventurados os aflitos, porque serão
consolados.
5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão
a terra.
6Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça, porque serão saciados.
7Bem-aventurados os misericordiosos, porque
alcançarão misericórdia.
8Bem-aventurados os puros de coração, porque
verão a Deus.
9Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
10Bem-aventurados os que são perseguidos por
causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11Bem-aventurados
sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de
mal contra vós, por causa de mim. 12aAlegrai-vos e exultai, porque
será grande a vossa recompensa nos céus.
REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MATEUS 5,1-12
01 fev 2026 (ANO A)
A liturgia deste quarto domingo do tempo comum propõe a leitura de um dos textos mais importantes do Novo Testamento: Mt 5,1-12. Trata-se da introdução do primeiro dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, conhecido como “discurso ou sermão da montanha” (Mt 5–7). Inclusive, a leitura desse discurso será continuada nos próximos domingos, uma vez que, na estrutura do ano litúrgico A, ele é distribuído numa sequência de seis domingos do tempo comum: do quarto ao nono, além de algumas festas, como a solenidade de todos os santos, por exemplo, quando se lê também o texto das bem-aventuranças, como hoje, que corresponde à introdução do discurso. Essa introdução ficou conhecida como “bem-aventuranças”, devido à repetição contínua do termo grego makárioi (μακάριοι), cujo significado é benditos, felizes ou bem-aventurados. Sem dúvidas, essa é uma das passagens mais lidas e conhecidas de todo o Novo Testamento, apreciada por cristãos e não cristãos. Gandhi, por exemplo, definiu as bem-aventuranças como “as palavras mais altas que a humanidade já escutou”.
De todas as palavras atribuídas a Jesus que
encontramos ao longo dos evangelhos, as bem-aventuranças são as mais
interpelantes e revolucionárias, embora sejam as mais fáceis de serem
deturpadas, passando de uma mensagem de transformação a uma de resignação. Por
isso, é necessário compreendê-las bem, para que sua mensagem seja sempre de
encorajamento e transformação, como exige o Reino dos Céus. E as
bem-aventuranças são as condições para o ingresso nesse Reino. O Novo
Testamento contém duas versões das bem-aventuranças: uma em Mateus e outra em
Lucas. Certamente os dois evangelistas tiveram acesso à mesma fonte, e cada um
adaptou de acordo com as necessidades de suas respectivas comunidades, tendo em
vista as diferenças entre as versões, facilmente constatadas numa leitura
paralela (cf. Mt 5,1-12a // Lc 6,20-26).
Na versão mateana, encontramos oito
bem-aventuranças, embora alguns comentadores considerem nove, devido à
ocorrência do termo grego makárioi (μακάριοι) por nove vezes. Porém, a nona ocorrência do
termo (v. 11) não deve ser considerada como uma nova bem-aventurança, mas como
uma recapitulação e síntese das oito, reforçando a exigência para que todas
elas sejam intensamente vividas. Enquanto isso, a versão de Lucas contém apenas
quatro bem-aventuranças, que são contrastadas com a fórmula de maldição “ai de
vós”, aplicadas às situações de oposição às bem-aventuranças. Também o cenário
é diferente nos dois evangelhos: enquanto em Mateus elas são proclamadas na
montanha, em Lucas a proclamação se dá na planície. Essa diferença se deve à
perspectiva teológica de cada evangelista. Mateus quer apresentar Jesus como o
novo legislador e mestre que supera Moisés. Assim como foi na montanha que
Moisés recebeu a Lei, também é da montanha que Jesus proclama as bem-aventuranças,
que são consideradas a nova Lei para a comunidade cristã, infinitamente
superior à antiga.
Para compreender melhor as bem-aventuranças em seu
sentido original, é necessário fazer mais uma consideração semântica. Como já
foi dito anteriormente, o termo grego empregado no Evangelho é makárioi (μακάριοι), o qual pode ser traduzido por benditos, felizes
ou bem-aventurados; é uma fórmula que introduz uma mensagem de felicitação. É
importante recordar que, embora escritos em grego, os evangelhos foram construídos
segundo uma mentalidade semítica, principalmente o de Mateus. Por isso, é
importante recordar o sentido da palavra na língua original de Jesus, o
hebraico. Ora, o termo correspondente ao grego “makárioi” (μακαριοι) em hebraico
(אשרי = asherêi), além de
uma felicitação, corresponde também a uma forma imperativa do verbo caminhar,
seguir em frente, avançar ou pôr-se em marcha. Há estudos recentes que vêem uma
confluência dos dois sentidos no texto de Mateus. De fato, sem esse segundo
sentido, as bem-aventuranças podem ser facilmente transformadas em mensagem de
conformismo ou resignação; com ele, fica mais clara sua dimensão subversiva e
transformadora, que caracteriza toda a mensagem de Jesus.
Ainda a nível de contexto, é importante recordar a
dinâmica do Evangelho de Mateus, que distribui os principais ensinamentos de
Jesus em cinco grandes discursos, sendo que o discurso da montanha é o primeiro
deles e o mais importante. Trata-se, portanto, do discurso inaugural de Jesus.
Até então, o evangelista tinha feito duas breves referências ao ensinamento de
Jesus, dizendo apenas que ele ensinava e qual era o tema da sua pregação: o
Reino dos Céus (cf. Mt 4,17.23), mas sem mostrar o conteúdo propriamente. Por
isso, o discurso da montanha é a primeira exposição do programa do Reino que
Jesus anuncia. Isso se constata pelas diversas vezes em que o Reino (em
grego: βασιλεία – basileia)
é mencionado ao longo do discurso, mas o mais importante é a natureza desse
Reino e seus destinatários primeiros: pobres, humildes, aflitos, injustiçados,
perseguidos.
Iniciamos o estudo do texto propriamente
considerando os dois primeiros versículos que funcionam como introdução às
bem-aventuranças e ao inteiro discurso da montanha: «Vendo Jesus às
multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus
começou a ensiná-los» (vv. 1-2). O evangelista já tinha dito que Jesus
ensinava e realizava curas, libertava as pessoas e, por isso, grandes multidões
o acompanhavam (cf. Mt 3,17.23-25). E isso é surpreendente porque a vida
pública de Jesus está apenas começando. Inclusive, só tinha chamado os quatro
primeiros discípulos, até então (cf. Mt 3,18-22). Isso mostra a urgência do
Reino. Ele tinha um núcleo de base para iniciar uma comunidade, sendo que o
mais importante era a natureza da comunidade, cujo retrato é delineado nas
bem-aventuranças. O gesto de sentar-se indica a autoridade de mestre que ele
possuía. Mas, ao contrário dos mestres judeus da época, ele não abre um rolo de
leis para transmitir. Simplesmente, ensina, sendo ele mesmo o conteúdo. Por
isso, pode-se dizer que ele é o Reino em pessoa.
Olhemos, pois, para cada uma das situações
contempladas por Jesus como necessitadas de transformação. Ao ler e contemplar
cada uma delas, devemos recordar que elas retratam as situações vividas pelo
próprio Jesus. Por isso, elas representam o retrato de Jesus e o ideal de
discípulo e discípula. Eis a primeira
bem-aventurança: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o
Reino dos Céus» (v. 3). De todas, tem sido essa a bem-aventurança
que tem recebido as interpretações mais equivocadas ao longo da história,
infelizmente. Longe de ser um convite ao conformismo, é um impulso à
transformação. Na língua grega a palavra pobre (πτωχός – ptôkós) deriva do verbo acocorar-se de
medo, dobrar-se, abaixar-se, encurvar-se; designa, portanto, uma condição de
humilhação extrema.
O convite de Jesus é para que não desanimem, mas
sigam em frente, não desistam, coloquem-se em marcha para alcançarem o Reino
que foi criado para eles, o Reino dos Céus, mas não no céu, aqui mesmo na
terra, como sinônimo de vida digna e plena. Aqui o termo espírito (em
grego: πνεύμα – pneuma) é
empregado como sinônimo de consciência da situação em que se encontram os
pobres, encurvados de medo pela opressão do império romano e pela religião
oficial da época. A esses, Jesus convida a perder o medo e, conscientemente,
seguir em frente lutando pelo Reino. O pobre que se encontra encurvado pelo
sistema, deve tomar consciência da sua situação insuportável e lutar, seguindo
em busca de seus direitos de herdeiro do Reino.
A segunda
bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os aflitos, porque serão
consolados» (v. 4). Ora, jamais será consolado o aflito que se
fecha em suas aflições, mas sim aquele que consegue mover-se, apesar do
sofrimento. Ser consolado na mentalidade bíblica é ter o sofrimento eliminado
por completo, por isso, consolar é diferente de confortar. De fato, confortar
significa encorajar a suportar uma situação difícil, enquanto consolar é eliminar
o sofrimento. A implantação do Reino dos Céus em um mundo tão hostil traz
muitas aflições para os discípulos de Jesus. Mesmo assim, eles devem avançar,
jamais recuar, para encontrar a consolação. Por isso, mais do que aceitação da
aflição, essa bem-aventurança convida as pessoas aflitas a não se fecharem, não
se acomodarem e buscarem a consolação. E isso não se faz sem mobilização e sem
luta perseverante.
Na terceira bem-aventurança, Jesus
diz: «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (v. 5). O
termo manso equivale a humilde, e significa a pessoa que reivindica alguma
coisa sem violência. Nesse caso particular, equivale às pessoas que lutam pela
terra sem fazer uso da violência. A luta sem violência se torna mais lenta e,
aparentemente, mais difícil de conseguir o objetivo. Por isso, Jesus encoraja,
pede paciência, determinação e ação; em outras palavras, é como se ele
dissesse: «não parem, continuem caminhando e lutando». Era muito comum os
pequenos camponeses perderem suas terras por dívidas, com possibilidade de
resgate. À medida que o tempo passava, as esperanças de resgate diminuíam e
muitos desanimavam. Por isso, Jesus os consola e os encoraja. A terra é dom de
Deus, mas sua posse pelos mansos e pequenos é conquista, fruto da confiança em Deus
e da luta perseverante.
Como não poderia deixar de ser, Jesus coloca para
os discípulos, conforme ele mesmo o fez em toda a sua vida, a justiça como uma
busca incessante. Por isso, a quarta bem-aventurança é tão
interpelante: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
serão saciados» (v. 6). A fome e a sede são as necessidades básicas que
mais incomodam o ser humano. Assim como o alimento e a bebida são essenciais
para a vida, também deve ser a luta por justiça entre seus discípulos. A comunidade
cristã não tem vida quando não se alimenta cotidianamente de justiça. Onde não
há justiça, não há dignidade, não há paz. É preciso seguir em frente na luta
por justiça.
Na quinta bem-aventurança,
temos: «Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão
misericórdia» (v. 7). É importante recordar que misericórdia, na Bíblia,
não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Com isso, Jesus
pede que seus discípulos prossigam sempre no caminho do bem. A misericórdia é
uma das principais características do Deus de Jesus, por isso, deve ser também
para os seus seguidores. Ser misericordioso, portanto, é reproduzir o agir de
Deus no mundo, cuja misericórdia é destinada a todas as pessoas, embora tenha
sempre as pessoas mais necessitadas como destinatárias primeiras. Portanto,
seguir fazendo o bem ao próximo, com opção preferencial pelos mais
necessitados, é uma das principais exigências do discipulado.
Com a sexta bem-aventurança, Jesus se
contrapõe claramente aos ritos de purificação da religião
judaica: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a
Deus» (v. 8). Os antigos ritos de purificação do judaísmo tinham escondido
o rosto verdadeiro de Deus. Jesus proclama a nulidade daqueles ritos e pede
para seus discípulos caminharem em outra direção, avançarem por outro caminho
que não seja o da religião que divide, exclui e até mata. Só há um tipo de
pureza: aquela interior, e essa não é proporcionada por nenhum rito, mas
somente pela disposição do ser humano em seguir os propósitos de Deus. Vê a
Deus quem olha para o próximo com os olhos de Deus. É nessa direção que o
discípulo de Jesus deve marchar, avançar, pois a verdadeira pureza consiste em
assimilar os sentimentos de Deus e transformá-los em ação, conforme as
circunstâncias e as necessidades.
A sétima
bem-aventurança diz: «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque
serão chamados filhos de Deus» (v. 9). Na marcha da comunidade formada por
discípulos e discípulas de Jesus, a promoção da paz é requisito básico e
essencial. Não se trata de uma falsa paz como aquela imposta por Roma,
intitulada “pax romana”. A paz que Jesus propõe não é uma mera ausência de
conflitos, mas um retorno ao ideal hebraico expresso pela palavra (שלום) shalom: paz como
bem-estar total do ser humano, harmonia com Deus, com o próximo e consigo
mesmo. É por essa paz que a comunidade de discípulos e discípulas deve lutar
enquanto caminha, fazendo dessa paz o rumo da caminhada. Não há prêmio para
quem caminha promovendo a paz, mas há consequências: ser chamados filhos de
Deus. Na tradição bíblica, ser filho é ser parecido com o pai. Quando alguém
caminha promovendo a paz, se torna parecido com Deus, por isso, será chamado
seu filho.
A oitava bem-aventurança funciona como
uma espécie de credencial para o reconhecimento do discípulo e sua pertença ao
Reino: «Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus» (v. 10). É claro que todas as
bem-aventuranças estão interligadas, não se pode separar uma da outra. Mas esta
oitava é uma recapitulação mais explícita da quarta: deve-se buscar a justiça
como algo indispensável à vida, a exemplo do alimento cotidiano. Mas a justiça
não apenas sacia, e sim traz perseguição, pois implica no combate às
injustiças. E é certo que quem luta contra injustiças recebe perseguição como
resposta. Quem adere plenamente à dinâmica do Reino será certamente
perseguido(a), pois a busca pelo Reino é inseparável da busca por justiça, como
vai dizer o próprio Jesus na sequência do discurso: «buscai, primeiro de
tudo, o Reino de Deus e sua justiça» (Mt 6,33). Então, tendo em vista que
a perseguição é consequência lógica da busca pelo Reino e a justiça, a palavra
de Jesus continua sendo de ânimo e encorajamento: continuai caminhando, avançando,
marchando em busca do Reino que é vosso! E foi isso o que ele mesmo fez.
Viver as bem-aventuranças é, portanto, abraçar um
projeto de sociedade alternativa que, inevitavelmente, entra em conflito com os
sistemas dominantes baseados na exploração, no lucro, na sobreposição de uns
sobre os demais e pela violência. Mas é diante de tudo isso, ou seja, no
conflito, que a comunidade cristã deve avançar, seguir em frente sem jamais
desanimar. Por isso, Jesus reforçou todo o ensinamento anterior, direcionando
diretamente para os discípulos a conclusão com as consequências do abraçar o
seu projeto: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e
perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de
mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos
céus» (vv. 11-12a). Alguns estudiosos vêem essa afirmação como uma nova
bem-aventurança, enquanto outros – a maioria – a vêem como um
reforço e síntese conclusiva das oito anteriormente apresentadas. Aquelas oito
são inseparáveis. Jesus não as apresenta como sugestões para os discípulos
escolherem uma ou outra. É preciso viver todas elas para ser discípulo e
discípula de Jesus, pois nelas ele traça o seu próprio retrato, diz como ele
mesmo viveu, caminhou ou avançou; e o discípulo deve, inevitavelmente, viver
como ele.
As bem-aventuranças nos desafiam a compreender e
reconhecer se, de fato, seguimos a Jesus, se somos seus discípulos e
discípulas. Para seguir Jesus é preciso estar em estado permanente de marcha,
caminhando contra tudo o que impede a realização do Reino já aqui na terra. A
comunidade cristã não pode mais aceitar que uma mensagem tão encorajante e
transformadora se transforme em sinal de resignação e aceitação passiva diante
de tudo o que impede o advento do Reino. A mensagem das bem-aventuranças é
libertadora porque convida o discípulo e a discípula a sair de si, colocar-se
em movimento rumo a um mundo melhor, mais justo e mais fraterno.



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