02 - Trabalha, trabalha para o melhoramento da juventude: também o pouco é alguma coisa e, em nossos dias, barrar o mal já é um grande bem. (L 28). SÃO JOSE MARELLO
João 13,1-15 Quinta-feira Santa (Missa do Lava-pés) 2026
"Faltava somente um dia para a Festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a hora de deixar este mundo e ir para o Pai. Ele sempre havia amado os seus que estavam neste mundo e os amou até o fim. Jesus e os seus discípulos estavam jantando. O Diabo já havia posto na cabeça de Judas, filho de Simão Iscariotes, a idéia de trair Jesus. Jesus sabia que o Pai lhe tinha dado todo o poder. E sabia também que tinha vindo de Deus e ia para Deus. Então se levantou, tirou a sua capa, pegou uma toalha e amarrou na cintura. Em seguida pôs água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha. Quando chegou perto de Simão Pedro, este lhe perguntou: - Vai lavar os meus pés, Senhor? Jesus respondeu: - Agora você não entende o que estou fazendo, porém mais tarde vai entender! - O senhor nunca lavará os meus pés! - disse Pedro. - Se eu não lavar, você não será mais meu discípulo! - respondeu Jesus. - Então, Senhor, não lave somente os meus pés; lave também as minhas mãos e a minha cabeça! - pediu Simão Pedro. Aí Jesus disse: - Quem já tomou banho está completamente limpo e precisa lavar somente os pés. Vocês todos estão limpos, isto é, todos menos um. Jesus sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: "Todos menos um." Depois de lavar os pés dos seus discípulos, Jesus vestiu de novo a capa, sentou-se outra vez à mesa e perguntou: - Vocês entenderam o que eu fiz? Vocês me chamam de "Mestre" e de "Senhor" e têm razão, pois eu sou mesmo. Se eu, o Senhor e o Mestre, lavei os pés de vocês, então vocês devem lavar os pés uns dos outros. Pois eu dei o exemplo para que vocês façam o que eu fiz."
Reflexão para Quinta-feira Santa
(Missa do Lava-pés) - João 13, 1-15
A liturgia da Quinta-feira Santa propõe, todos os
anos, a leitura de João 13,1-15, texto que narra o episódio do lava-pés. Essa cena
é exclusiva do Evangelho segundo João e, certamente, é uma das passagens mais
significativas de todo o Novo Testamento. Desde os primeiros séculos, tem
marcado o cristianismo, recebendo diversas possibilidades de interpretação.
Antes de tudo, podemos dizer que é um texto comprometedor, pois mostra que, no
ápice da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor,
como o principal sinal distintivo de pertença a si; o cristianismo, portanto,
não pode ignorar esse fato. A localização do texto e o contexto da cena
reforçam ainda mais a sua importância: esse episódio serve para delimitar a
divisão clássica do Evangelho segundo João em dois livros, “Livro dos Sinais”
(Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21), e faz João introduzir a narrativa
da paixão com um gesto tão marcante de Jesus.
Apresentamos uma pequena contextualização para, em
seguida, nos voltarmos diretamente para o texto. A princípio, pode nos causar
espanto a diferença entre João e os demais evangelhos quando se trata da última
ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mateus,
Marcos e Lucas), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica nada menos
que cinco capítulos: 13, 14, 15, 16 e 17. Ao longo desses capítulos, ele
apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e
palavras, numa espécie de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço,
apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. No Evangelho
de João, não há nenhum aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos
demais; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da
traição de Judas (cf. 13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e
sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia apresentado
em outra ocasião: após o sinal da “multiplicação dos pães” (cf. 6,1-15), o
evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se auto apresentando como o
“pão da vida” (cf. 6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer
uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma
vez que essa já tinha sido feita. O texto que a liturgia propõe é a primeira
parte do longo relato da ceia.
O texto começa com um indicativo teológico-temporal
importante: “Antes da festa da páscoa” (v. 1a). O evangelista não pretende
negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos, mas pretende
diferenciar, ou seja, quer dizer que a páscoa celebrada por Jesus já não é mais
a mesma do templo. A páscoa de Jesus não exige ofertas e sacrifícios, não é
instrumento de exploração como se praticava no templo. Celebrando antes, Jesus
substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois pelos praticantes
da religião oficial perdeu a sua validade, está caduca e vencida. Na páscoa do
templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos
cordeiros, enquanto na páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo
da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor; nessa,
não há morte, há doação de vida por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na
nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para
uma novidade: Jesus inaugura uma nova páscoa, subversiva, por sinal; é essa que
a comunidade cristã deve celebrar.
Ao longo de todo o Evangelho, João criou um clima
de suspense em relação à “hora de Jesus” (cf. 2,4; 12,23). Pois bem, essa hora
chegou: “sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora” (v. 1b). É a hora de Jesus
glorificar ao Pai, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O
Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de
Jerusalém, uma vez que esse fora transformado em casa de comércio (cf. Jo
2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: “tendo amado os seus que estavam
no mundo, amou-os até o fim” (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso,
é “até o fim”. “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu
término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando,
uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas
aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus
recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço.
Continuando, diz o evangelista que “Estavam tomando
a ceia” (v. 2a). A ceia não representa apenas o consumo de alimentos, mas
significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal; é o momento
primordial da vivência do amor-comunhão. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa
ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é
feito na maior sinceridade e transparência; por isso, o evangelista menciona o
episódio lamentável da traição de Judas (cf. v. 2b): nada é imposto. A
comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus
e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como
Judas outrora, e tantos nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor
não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre
aqueles “amados até o fim”; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o
seu projeto e se aliou ao sistema dominante; o evangelista é enfático nesse
sentido: “o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão
Iscariotes, o propósito de entregar Jesus” (v. 2bc). Ora, Jesus seria
capturado, independentemente da traição de Judas, pois há muito tempo as
autoridades religiosas e políticas o almejavam; daquela páscoa ele não
passaria. O mal de Judas foi ter sido aliado e cúmplice do poder que gera morte
e, ainda mais, movido por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças
com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está
permitindo que o “diabo seja posto em seu coração”.
A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos
seus começou a se materializar quando ele “levantou-se da mesa, tirou o manto,
pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (v. 4). Certamente, foram grandes o
espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus.
Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à
dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na
cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo
a condição de servo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz
voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a
oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes
do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso,
Jesus usa um avental improvisado de uma toalha, mostrando que não pode haver
impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o
serviço prevalece sobre o rito.
Na sequência, o texto diz o que Jesus fez após
deixar de lado o manto e pôr-se em atitude de serviço: “Derramou água numa
bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com
que estava cingido” (v. 5). Assim como os leitores ainda hoje ficam perplexos
com a descrição dessa cena, muito mais ficaram os discípulos que estavam com
Jesus. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica na época:
lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto
acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo
Oriente, sobretudo, porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias
muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado
permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições
das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem
os comensais se sentavam em cadeiras, sobretudo nos ambientes mais simples. A
mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao
seu redor, sentava-se em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés
muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era uma
exigência básica de higiene.
O lava-pés era também um gesto de hospitalidade e
acolhida: ao receber uma visita, o dono da casa oferecia, imediatamente, a água
para lavar os pés. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: no
cotidiano, esse papel era próprio dos escravos; em ocasiões especiais, a mulher
lavava os pés do marido, e o dono da casa lavava os pés de convidados ilustres,
em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns
mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no
dia-a-dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante.
Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores: sendo ele
Mestre e Senhor (cf. vv. 13-14), fez o que era típico do escravo (ou do
discípulo). Com esse gesto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na
comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço.
Assim, ele ensinou aos discípulos de outrora e de sempre que eles devem estar
dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do
dia-a-dia, inclusive nas mais humilhantes, como lavar os pés.
É claro que houve reação dos discípulos à atitude
de Jesus. O primeiro a protestar foi Simão Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés”
(v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de
Israel”, deve mesmo ser chocante deparar-se com um “servo”. Por isso, o espanto
e a negação; o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha
ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também a resistência
dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem
algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e
pequenos, súditos e chefes, e acabou naturalizando essas condições; Jesus com
suas palavras e gestos quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O
mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava
naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade
não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno,
igualitário e solidário.
O outro motivo para a resistência de Pedro foi o
medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lava os pés dos outros,
os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude
de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da
comunidade: “Jesus respondeu: Se eu não te lavar não terás parte comigo” (v.
8b). Aceitar um mestre servo e se fazer servo com ele e como ele é condição
para fazer parte da comunidade cristã. Após a insistência de Jesus, Pedro
aceitou, mas não compreendeu: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas
também as mãos e a cabeça” (v. 9). Com essa resposta, Pedro quis desviar o foco
da proposta: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de
purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus
tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter que servir ao
próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a
atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, ele estaria se isentando do
compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica,
contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus,
ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida
com a revolução de valores e as consequências que essa implica.
Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus
concluiu o seu gesto: “Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus
sentou-se de novo” (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das
pessoas livres. Sentar à mesa e servir eram papéis incompatíveis: quem servia
não tinha direito de sentar-se, e quem sentava não se humilhava servindo. Jesus
aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de
uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da
vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos,
principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na
comunidade, porque todos são iguais: o que senta à mesa, serve, e o que serve,
senta à mesa. O que era papel do escravo, lavar os pés, é agora papel também da
pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As
divisões hierárquicas não tem espaço na comunidade cristã, porque nessa
prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser
humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até
as mais complexas, como dar a própria vida por amor.
Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova
mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão
de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos os planos de grandeza e
projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam
com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a
religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando
apenas as lideranças: ao invés dos romanos, que fossem eles, os discípulos do
Messias, que controlassem a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de
dominação: exército, impostos, divisões de classe e uso da violência quando a
estabilidade estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa
mentalidade prevaleceu. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para
catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu
exemplo: “portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós
deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma
coisa que eu fiz” (vv. 14-15).
Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para
mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais
espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro
consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda
resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do
templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho.
Jesus celebrou, assim, a páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço,
criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a
partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere
alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo
igualitário e fraterno proposto por Jesus.
Dia 02
Por que
sofrer por antecipação?
Não é bom
imaginar dores e problemas futuros, que só causam angústia e sofrimento.
Lembre-se
de que o medo paralisa, fecha caminhos de sucesso e saúde e acaba com a tranquilidade
mental.
Quem anda
pelos trilhos da confiança se sente fortalecido e revigorado para enfrentar as
adversidades.
É preciso
se abandonar em Deus e confiar nele, sem nenhum receio.
“Isso,
porque eu sou o Senhor, o teu Deus, eu te pego pela mão e digo: ´Não temas, que
eu te ajudarei´”. (Is 41,13).










