08 março - Quer seja comprido ou curto, quer seja bom ou mau o caminho, quer se enxergue ou não a meta com a vista humana, depressa ou devagar, contigo, ó José, estamos certos de que caminharemos sempre bem. (L 208). São José Marello
Jesus e a samaritana. - João 4,5-42
Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto da
propriedade que Jacó tinha dado a seu filho José. Havia ali a fonte de Jacó.
Jesus, cansado da viagem, sentou-se junto à fonte. Era por volta do meio-dia.
Veio uma mulher da Samaria buscar água. Jesus lhe disse: “Dá-me de beber!” Os
seus discípulos tinham ido à cidade comprar algo para comer. A samaritana disse
a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher
samaritana?” Jesus respondeu: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que
te diz: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva”. A mulher
disse: “Senhor, não tens sequer um balde, e o poço é fundo; de onde tens essa
água viva? Serás maior que nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual bebeu
ele mesmo, como também seus filhos e seus animais?” Jesus respondeu: “Todo o
que beber desta água, terá sede de novo; mas quem beber da água que eu darei,
nunca mais terá sede, porque a água que eu darei se tornará nele uma fonte de
água jorrando para a vida eterna”. A mulher disse então a Jesus: “Senhor, dá-me
dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir aqui tirar água”.
[...] A mulher disse-lhe: “Eu sei que virá o Messias (isto é, o Cristo); quando
ele vier, nos fará conhecer todas as coisas”. Jesus lhe disse: “Sou eu, que
estou falando contigo”. Nisto chegaram os discípulos e ficaram admirados ao ver
Jesus conversando com uma mulher. Mas ninguém perguntou: “Que procuras?”, nem:
“Por que conversas com ela?”. A mulher deixou a sua bilha e foi à cidade,
dizendo às pessoas: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não
será ele o Cristo?” [...] Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em
Jesus por causa da palavra da mulher que testemunhava: “Ele me disse tudo o que
eu fiz”. [...]
REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DA
QUARESMA
João 4,5-42 (Ano A) 08 março 2026
Com a liturgia de hoje, abre-se uma sequência de
três domingos de leitura de textos do Evangelho de João. Para este domingo, o
primeiro da série e o terceiro da Quaresma, o texto proposto é Jo 4,5-42, o
relato do episódio do encontro e o diálogo de Jesus com a mulher samaritana, um
episódio exclusivo do Quarto Evangelho. Trata-se de um dos textos mais ricos de
todo o Novo Testamento, tanto do ponto de vista literário quanto teológico,
considerado a obra-prima de João. Devido à sua extensão, não o comentaremos
versículo por versículo; procuraremos colher a mensagem central, destacando
apenas alguns versículos e dados particulares mais significativos. É um texto
que corresponde muito bem aos propósitos da Quaresma, enquanto itinerário
catequético e processo de descobrimento da identidade de Jesus para dar-lhe
adesão decidida e convicta. Nesse texto, o evangelista João mostra, mais do que
nunca, o quanto o encontro com Jesus humaniza e liberta as pessoas.
Como sempre, é imprescindível recordar o contexto,
tanto literário quanto histórico, para chegarmos a uma compreensão mais
adequada do texto. Do ponto de vista literário, convém recordar que o episódio
contado no texto faz parte de uma série de acontecimentos importantes do início
do ministério de Jesus no contexto do Quarto Evangelho, desde as bodas de Caná
(Jo 2,1-22), passando pelo desmascaramento do templo, transformado em casa de
comércio (Jo 2,13-21), até o encontro noturno com Nicodemos, um judeu ilustre e
reto (Jo 3,1-30), culminando com o encontro, em plena luz do dia, com uma
mulher sem reputação, como era aquela samaritana (Jo 4,1-42), que corresponde
ao evangelho de hoje. Este episódio, portanto, é o coroamento de uma sequência
de eventos significativos do Evangelho de João que visam revelar a identidade
de Jesus enquanto Filho de Deus e Messias. Não pode passar despercebido o fato
que essa série de eventos começa e termina tendo uma mulher como principal
interlocutora de Jesus: a mãe, em Caná, e a samaritana, na Samaria. Em nenhum
dos casos o nome da mulher é mencionado, porque em ambas as situações ela é
personificação da comunidade, tanto num estágio já de maturidade na fé – a mãe,
nas bodas de Caná – quanto num processo ainda de descoberta – o caso da
samaritana.
A nível de contexto histórico, é importante
recordar a rivalidade que havia entre judeus e samaritanos, como o próprio
texto menciona: “De fato, os judeus não se dão com os samaritanos” (v.
9b). Essa rivalidade teve a sua origem com o cisma que dividiu o único reino de
Israel em dois, ficando Samaria como capital do reino do Norte, e Jerusalém
como capital do reino do Sul. Após o cisma, Jeroboão I, o primeiro rei de
Israel do Norte, construiu vários santuários em seu reino, para competir com o
culto do templo de Jerusalém, inclusive, proibindo que sua população se
dirigisse a Jerusalém para participar das liturgias do grande templo. O culto
praticado nestes santuários era, obviamente, considerado ilegítimo pelos
judeus. Essa ilegitimidade se acentuou ainda mais após a invasão assíria em 722
a.C.. Ora, além de deportar parte da população local, a Assíria levou povos de
suas outras colônias para repovoar a Samaria e todo o reino do Norte,
constituindo assim um povo mestiço, plural e sincrético. Os povos estrangeiros
levaram seus costumes e tradições para a Samaria, juntamente com suas diversas
práticas cultuais (cf. 2Rs 17,24-28). Tudo isso levou os judeus a considerarem
os samaritanos como impuros e heréticos. É, portanto, considerando este contexto
que devemos ler o evangelho de hoje. E Jesus veio para superar esse abismo
histórico-ideológico, quebrando as barreiras, abrindo comunicação, ao revelar o
verdadeiro rosto de Deus.
O texto começa afirmando que “Jesus chegou a uma
cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do poço que Jacó tinha dado ao seu
filho José” (v. 5). A recordação dos patriarcas em si, já é sinal de que se
trata de um local importante para o povo de Israel. É um lugar que
representativo, com significado expressivo para a fé do povo. O poço possui uma
rica simbologia na Bíblia; é o lugar do encontro e da renovação das forças,
símbolo de vida fecunda e transformação. E o evangelista acrescenta uma
informação muito importante sobre o estado em que Jesus se encontrava, para
enfatizar ainda mais a importância do poço no contexto do episódio: Jesus
estava “cansado da viagem” (v. 6b). Essa é a única vez que um
evangelista retrata explicitamente o cansaço de Jesus, o que João faz
empregando o termo grego “kekopiakos” (κεκοπιακώς)
para cansado. É um dado relevante pois expressa a
humanidade de Jesus em sua dimensão
mais profunda: um homem cansado e sedento, embora portador de uma água viva, que ao final do episódio será
reconhecido como o salvador do mundo (v. 42). Cansado e sedento, Jesus não tem
medo de pedir ajuda nem de relacionar-se com as pessoas, mesmo as sem
reputação, que a sociedade da época excluía. Por isso, pede de beber a uma
mulher samaritana que também se encontrava no poço (v. 7), demonstrando que não
estava condicionado às barreiras impostas pela sociedade e a religião. Para os
padrões da época, não era aconselhável para um homem conversar com uma mulher
sozinha, ainda mais com uma mulher samaritana, personagem duplamente
marginalizada: primeiro, por ser mulher, numa sociedade patriarcal; segundo,
por ser samaritana, uma raça de gente desprezível, como os judeus consideravam.
A sede de Jesus indica sua mais intensa humanidade.
E mais: numa terra quente, em pleno meio-dia, a sede é também sinal de
fragilidade, impotência. A princípio, parece ser mais pretexto para abrir um
diálogo transformador com aquela mulher, como ele mesmo revela que tinha uma
água viva para dar, mas é acima de tudo uma demonstração da sua humanidade (v.
10). Com isso, o evangelista revela a harmonia entre o humano e o divino na
pessoa de Jesus: o homem que sente sede e pede água é o mesmo que possui uma
água viva, capaz de saciar eternamente. É um paradoxo desconcertante que o
evangelista João mostra com uma habilidade brilhante. À medida em que o diálogo
flui, a mulher chega a reconhecer Jesus como portador de um dom de Deus, a
ponto de pedir-lhe da sua água viva: “Senhor, dá-me dessa água para que eu
não tenha mais sede e nem tenha de vir até aqui para tirá-la” (v. 15).
Quanto mais o diálogo se estende, mais Jesus ganha a confiança da mulher,
levando-a à sinceridade, inclusive, reconhecendo a ilegitimidade de sua união
com um esposo ilegítimo, o sexto marido, o que é imagem das diversas divindades
com as quais a Samaria já entrou em relação (vv. 16-18). De fato, entre os
cinco maridos anteriores daquela mulher e o da época do encontro com Jesus, os
estudiosos identificam a idolatria da Samaria, associando os países dominantes
e as divindades adoradas. Revelando sua identidade pecadora, a mulher demonstra
também o desejo de conversão, embora a religião não lhe seja favorável,
causando-lhe confusão acerca da verdadeira adoração; ela não sabe onde e nem
como prestar o culto verdadeiro (vv. 19-20). Jesus se interessa cada vez mais
pela causa da mulher samaritana, como se interessa pela causa de toda pessoa
marginalizada; declara que não importa o lugar do culto, mas a qualidade (vv.
21-24).
Independentemente do lugar de culto que
frequentasse, aquela mulher seria vítima de preconceitos e discriminações.
Consciente disso, Jesus lhe indica o culto verdadeiro: a “adoração em
espírito e verdade” (v. 24). Ao contrário do que muitas interpretações
afirmam, essa adoração não significa um culto intimista, pessoal e sincero, mas
sim um culto ao Pai que passe pelo Espírito Santo e pelo próprio Jesus, e
culmina em obras de amor. O “Espírito”, aqui, é o dom de Deus, a água viva que
Jesus possui e a destina à toda a humanidade, é o mesmo Espírito que ele,
ressuscitado, soprará sobre os discípulos; a “verdade” é a sua própria pessoa
enquanto plenitude da revelação, ou seja, de tudo o que o Pai tem a dizer à
humanidade inteira. A adoração em Espírito e em verdade, portanto, é a relação
nova que se inaugura entre Deus e a humanidade: não mais intermediada pela Lei
e nem pelos sacerdotes dos templos, mas pelo Espírito Santo e Jesus. Esse culto
é acessível a todas as pessoas, de todos os tempos e lugares, e terá como sinal
de autenticidade as obras de amor geradas a partir dele.
Enquanto a mulher samaritana dava adesão a Jesus,
por meio do diálogo fluente, os discípulos que já conviviam com ele há mais
tempo continuavam presos à mentalidade antiga, certamente imposta pela
religião, por isso, se admiraram com sua atitude dele falar com uma mulher (v.
27). Por sinal, o diálogo é a principal chave de leitura deste episódio e de
toda mensagem e vida de Jesus. Enquanto Palavra eterna (Jo 1,1-18), ele veio ao
mundo para o Pai dialogar com a humanidade de modo transparente, claro. E ele
demonstrou isso com sua práxis, da qual o evangelho de hoje pode ser
considerado uma síntese. Os discípulos ainda estavam condicionados aos
preceitos da Lei e fechados ao Espírito. Andavam com Jesus, mas não tinham
ainda sido saciados pela água viva que ele tinha a oferecer, certamente porque
não tinham ainda tanta disponibilidade para dialogar, pois só conhece Jesus
quem dialoga com ele. A samaritana dialogou, por isso conheceu e se
transformou. Convicta de ter encontrado sentido para a sua vida no encontro com
Jesus, a mulher toma uma atitude decisiva e fundamental: “deixou o seu
cântaro e foi à cidade” (v. 28) para anunciar a experiência vivida. Deixar
o cântaro significa abandonar a Lei para aderir ao Espírito e ao programa de
vida de Jesus. É a passagem ao discipulado; de mulher rejeitada e excluída, ela
se tornou discípula e anunciou, convidando os demais a fazerem a mesma
experiência que ela tinha acabado de fazer, convencendo toda a cidade a
buscarem o mesmo (v. 28-30). A fé autêntica e verdadeira é contagiante,
inevitavelmente se espalha. É importante recordar que em momento algum Jesus a
repreendeu pelos erros passados; levou-a a reconhecer quantos maridos teve,
porém, sem incriminá-la; o resultado foi uma conversão autêntica, o que os
discípulos pareciam ainda não ter experimentado, como dá a entender pela sutil
advertência que Jesus lhes faz com uma pequena parábola da colheita (vv.
34-38). A colheita abundante é a fé dos samaritanos, a adesão dos que estavam
distantes, confirmando que Jesus rompe barreiras e todos os muros de separação,
religiosos e ideológicos, para quem se deixa encantar pela sua pessoa e a sua
mensagem.
O desfecho da história é uma grande adesão causada,
inicialmente, pelo testemunho da mulher (v. 39) e, em seguida, pela experiência
pessoal que cada um fez (v. 42), culminando com o reconhecimento de Jesus como
o Salvador do mundo. Os judeus esperavam um messias nacionalista, restaurador
do reino de Israel; os samaritanos reconhecem Jesus como Salvador do mundo. São
duas visões bem diferentes entre si, que revelam as diferenças entre quem
permanece preso aos preceitos da Lei, sem coragem de abandonar o cântaro, ou
seja, de mudar de vida, e quem reconhece a necessidade de beber da água viva
que Jesus doa. Enquanto o cântaro da Lei aprisiona, a água viva que Jesus doa
liberta e sacia. Os samaritanos, povo marginalizado e impuro para os judeus,
proporcionam a primeira adesão comunitária à pessoa de Jesus: o testemunho da
mulher contagiou a cidade inteira. Sentindo o peso da rejeição e marginalização
impostas pela religião, os samaritanos acolheram o dom de Deus revelado por
Jesus e destinado a todos e todas, especialmente aos mais rejeitados.
O encontro transformador de Jesus com a samaritana,
portanto, deve ser parâmetro para nossa relação com ele e para todo processo de
descoberta e crescimento na fé. A mulher samaritana progrediu na fé
gradualmente. Inicialmente, Jesus era apenas um judeu viajante cansado e com
sede, visto com suspeitas por ela, inclusive. Com a fluência do diálogo, ela
foi transformando sua percepção sobre ele, chegando a reconhecê-lo como um
profeta (v. 19), um homem de conhecimentos excepcionais (v. 29) e, finalmente,
como o Messias. Ela fez a própria descoberta porque abriu diálogo e Jesus se
deixa conhecer por quem dialogo com ele. Que a Quaresma nos ajude a encontrar Jesus
e nos abra ao diálogo transformador, deixando-nos humanizar por ele.
Dia 08
Nesse
momento, como está se sentindo?
Se estiver
triste ou desanimado, não se esqueça de rezar.
Uma pessoa
deprimida, mas otimista, melhora mais rápido que uma depressiva e sem
esperanças.
Quem pensa
e age com pessimismo agrava ainda mais sua enfermidade.
Em suas
orações, peça que Deus remova de sua mente as atitudes causadoras de depressão
e pessimismo.
Nada lhe é
impossível.
Confie
sempre em Deus!
Ele tudo
pode e quer curá-lo!
Entregue-se
a ele e dedique um pouco do seu tempo aos irmãos.
“Jesus
voltou-se e, ao vê-la, disse: ´Coragem, filha! A tua fé te salvou´.
E a mulher
ficou curada a partir daquele instante”. (Mt 9,22).













