22 março - São José nos ensine o modo de cuidar de nossos alunos, aliás, seja ele mesmo o seu Cuidador. (L 170). São José Marello
Evangelho da ressurreição de Lázaro - João 11,1-45
Ora,
havia um doente, Lázaro, de Betânia, do povoado de Marta e de Maria, sua irmã.
As irmãs mandaram avisar Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. Disse
Jesus: “Esta doença não leva à morte, mas é para a glória de Deus, para que o
Filho de Deus seja glorificado por ela”. [...] E acrescentou: “Nosso amigo
Lázaro está dormindo. Vou acordá-lo”. Os discípulos disseram: “Senhor, se está
dormindo, vai ficar curado”. [...] Jesus então falou abertamente: “Lázaro
morreu! E, por causa de vós, eu me alegro por não ter estado lá, pois assim
podereis crer. Mas vamos a ele”. [...] Jesus disse então: “Eu sou a
ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá. E todo
aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisto?” Ela respondeu:
“Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele
que deve vir ao mundo”. [...] “Onde o pusestes?” Responderam: “Vem ver,
Senhor!” Jesus teve lágrimas. Os judeus então disseram: “Vede como ele o
amava!” Alguns deles, porém, diziam: “Este, que abriu os olhos ao cego, não
podia também ter feito com que Lázaro não morresse?” De novo, Jesus ficou
interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra.
Jesus disse: “Tirai a pedra!” Marta, a irmã do morto, disse-lhe: “Senhor, já
cheira mal, é o quarto dia”. Jesus respondeu: “Não te disse que, se creres,
verás a glória de Deus?” Tiraram então a pedra. E Jesus, levantando os olhos
para o alto, disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre
me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia
que tu me enviaste”. Dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para
fora!” O que estivera morto saiu, com as mãos e os pés amarrados com faixas e
um pano em volta do rosto. Jesus, então, disse-lhes: “Desamarrai-o e deixai-o
ir!” Muitos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera,
creram nele.
Reflexão para o 5° Domingo da
Quaresma - João 11, 1-45 (Ano A) 22 março 2026
Com a liturgia deste quinto domingo da quaresma, concluímos a sequência de três domingos de leitura de episódios exclusivos do Quarto Evangelho. O texto proposto hoje é o relato do sétimo e último sinal cumprido por Jesus nesse Evangelho: a reanimação de Lázaro, seu amigo – Jo 11,1-45. Esse é um episódio muito significativo para toda a obra joanina, pois é a conclusão do ciclo dos sinais realizados por Jesus. É importante recordar que João não chama as obras extraordinárias de Jesus de milagres, mas de sinais. Como se trata de um texto de grande extensão, totalizando quarenta e cinco versículos, não analisaremos todos os versículos, mas procuramos colher a mensagem central e destacar apenas os versículos principais. Os sete sinais narrados por João foram criteriosamente escolhidos, como ele mesmo afirma no final do Evangelho, para despertar a fé em Jesus e transmitir a vida em plenitude que dessa emana (cf. Jo 20,30-31), sendo esse da reanimação de Lázaro o maior de todos. Por isso, é o sétimo, cuja número evoca perfeição, e prefigura a ressurreição do próprio Jesus, o sinal por excelência.
Convém recordar que o sinal narrado não se trata
propriamente de uma ressurreição, mas de uma “reanimação”, considerando que
ressurreição é a passagem da morte para uma vida definitiva e plena, graças à
ressurreição de Cristo. O que João narra é Jesus realizando a reanimação de um
corpo que já se encontrava em estado de decomposição, foi recuperado, mas que
continuou corruptível. Jesus apenas prolongou os dias de Lázaro com esse sinal
extraordinário. Esse não é o único milagre do gênero narrado na Bíblia. Ainda
no Antigo Testamento, Elias e Eliseu realizaram prodígios semelhantes: Elias
restituíra a vida ao filho da viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17,17-24), e Eliseu
fizera o mesmo com o filho da sunamita (cf. 2Rs 4,8-37). Nos demais evangelhos
temos outros dois episódios semelhantes: Jesus reanima o filho da viúva de Naim
(cf. Lc 7,11-17) e a filha de Jairo (cf. Mc 5,22-43).
Como sempre, não dispensamos a contextualização,
mesmo que breve, para que o texto possa ser melhor compreendido. Esse relato da
reanimação de Lázaro está inserido entre duas ameaças de morte a Jesus da parte
dos dirigentes ou chefes da religião oficial. Daí, já surge um dado
interessante: à morte, Jesus responde com o dom da vida. No capítulo anterior,
por ocasião da festa da dedicação do templo, os judeus quiseram apedrejar
Jesus, acusando-o de blasfemador (cf. Jo 10,31-33), mas Ele conseguiu escapar e
fugiu (cf. 10,39-40). Após restituir a vida de Lázaro, os chefes judeus,
incluindo o Sumo Sacerdote, fizeram o plano definitivo para o aniquilamento de
Jesus, pois Ele tinha ido longe demais dessa vez (cf. Jo 11,46-54). Portanto,
em meio a duas situações de morte, Jesus manifesta a vida e a apresenta como
resposta a toda e qualquer situação em que essa é ameaçada.
Voltemos agora o nosso olhar para o texto partindo
do primeiro versículo, muito significativo, por sinal: “Havia um doente,
Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta” (v. 1). O evangelista
apresenta Betânia, cujo nome significa “casa da aflição”, como o espaço de uma
comunidade cristã ideal, onde a fraternidade, de fato, reinava. Essa
fraternidade é evidenciada pela apresentação que o evangelista faz de seus
membros: Lázaro, Maria e Marta são apresentados apenas como irmãos, não há
hierarquia entre eles, não há pai nem mãe, marido ou esposa, mas apenas pessoas
irmão e irmãs, ou seja, pessoas iguais; essa é a comunidade ideal para o
cultivo do amor e das relações fraternas e sinceras. Embora a comunidade de
Betânia fosse ideal, ao mesmo tempo era vulnerável por dois motivos,
principalmente: primeiro, por ser um povoado; segundo, porque estava próxima a
Jerusalém (v. 18). Ora, o povoado na linguagem dos evangelhos (em grego κώμη – kôme), é sinônimo de mentalidade fechada, resistência e conservadorismo, pois é o lugar de preservação da
tradição, onde a novidade não é bem recebida.
O segundo motivo para a vulnerabilidade da
comunidade de Betânia só é apresentado no versículo 18, mas já adiantamos aqui:
“Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém”. Infelizmente, a tradução
litúrgica omite o advérbio “perto” (em grego: εγγύς – enghys), presente no texto original; a tradução mais justa seria, portanto, “Betânia estava perto
de Jerusalém cerca de três quilômetros”. Para a proximidade geográfica, a
indicação dos três quilômetros (quinze estádios) seria suficiente. O advérbio
faz falta porque a ênfase que o evangelista está dando é à proximidade
ideológica. Estando próxima a Jerusalém, essa comunidade era facilmente
influenciada pela ideologia e o poder dominantes, ou seja, pelo judaísmo
oficial. A influência de Jerusalém sobre a comunidade de Betânia se evidencia
ao longo de todo o texto pela reação dos personagens diante do fenômeno da
morte (vv. 19.21.24.31.33.37), e diante de Jesus. Diz o texto que “Muitos
judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão”
(v. 19), quer dizer que a morte era vista como causa de desespero e medo, e
Jesus não era conivente com essa mentalidade. Por isso, Ele prefere não entrar
no povoado: Marta vai ao encontro dele e, depois, também Maria, pois Jesus a
tinha chamado (vv. 20.28.30).
No povoado, concebia-se a morte com o respaldo da
religião oficial: as irmãs choravam desesperadamente, sendo consoladas pelos
judeus que tinham ido de Jerusalém. Por isso, Jesus fica fora do povoado (v.
30), porque somente saindo das antigas estruturas e mentalidade é possível
vivenciar o triunfo da vida: de fora do povoado, Jesus chama as irmãs a saírem;
Ele não entra e as conduz tomando-as pela mão, mas dá a liberdade de escolha;
ao seu convite, as irmãs de Betânia e os cristãos de todos os tempos podem
responder positiva ou negativamente. De Lázaro, o doente-morto-vivo, pouco se
diz, pois, o objetivo do evangelista não é apresentar uma biografia sua, mas
convidar a comunidade a escapar das estruturas de morte e despertá-la para
Aquele que é “a Ressurreição e a Vida” (vv. 25-26), Jesus. Como o significado
do nome Lázaro é “Deus ajuda”, podemos compreender o episódio narrado em torno
da sua pessoa como um convite de Jesus à comunidade a buscar ajuda e consolo
fora da Lei e das antigas instituições, por isso, Ele diz: “essa doença é para
que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (v. 4). Em Lázaro, Deus está
ajudando a comunidade a sair da antiga mentalidade.
Como o texto é também um pré-anúncio da paixão,
morte e ressurreição de Jesus, o evangelista ressalta alguns aspectos
importantes da sua vida, sobretudo, no que diz respeito à sua humanidade: um
homem de afetos e emoções! Cultivava amizade (v. 5), amava e se deixava ser
amado, a ponto de ter o amor como a característica maior das relações recíprocas
com seus discípulos: “Senhor, aquele que amas, está doente” (v. 3a); aqui, o
evangelista apresenta Lázaro como o discípulo ideal, cuja relação com o Senhor
é simplesmente o amor. Ser discípulo é sentir-se amado por Jesus e amar ao
próximo com a mesma intensidade do amor recebido de Jesus. O afeto e a
seriedade de Jesus nas relações com seus discípulos são muito bem apresentados
por João nesse relato. Não poderia passar despercebido em nossa reflexão o
registro marcante do versículo 35: “E Jesus chorou”. A interpretação para essa
expressão tem sido muito questionada e variada ao longo do tempo. É inegável
que foi uma demonstração de afeto e prova do seu amor pelo discípulo ideal,
Lázaro.
Aqui, se faz necessária mais uma observação
semântica. As irmãs choravam (vv. 31.33) e certamente outros amigos que foram
ao encontro delas em solidariedade. Há, no entanto, uma distinção entre as duas
maneiras de chorar, o que não se percebe na tradução litúrgica. Em relação a
Maria, o evangelista emprega um verbo que significa chorar desesperadamente e
com lamentos (em grego: κλαίω – klaío). Para afirmar o “choro” de Jesus, o evangelista emprega um outro verbo,
que significa simplesmente “derramar
lágrimas”, “lacrimejar” (em
grego: δακρύω –
dakryo), e expressa uma reação
natural, sem desespero. Portanto, enquanto os demais, principalmente as irmãs,
choravam desesperadamente, derretendo-se em prantos e lamentações, Jesus apenas
derramou lágrimas porque, para Ele, a morte nunca é o fim. As lágrimas de Jesus
causam admiração entre os judeus: “Então os judeus disseram: Vede como ele o
amava” (v. 36). Ora, eles não conheciam a gratuidade do amor nas relações;
viviam aprisionados pelo rigor da Lei; concebiam a relação com Deus a partir do
modelo patrão-servo, dominador-dominado. Por isso, a Boa-nova de Jesus não
tinha boa aceitação no povoado. Por onde Jesus passa, o amor o acompanha e só
quem ama e se sente amado pode acolhê-lo.
Jesus foi ao encontro das irmãs porque não abandona
sua comunidade aflita e amava incondicionalmente Lázaro, a ponto de derramar
lágrimas por ele (v. 35), mesmo não compactuando com a mentalidade delas.
Porém, sua ida é pedagógica. Ao invés de alimentar aquela mentalidade, ainda
influenciada pela religião oficial, Ele a combate: chega somente no quarto dia
após a morte (v. 39) e não entra no povoado. A chegada no quarto dia foi
proposital: Ele tinha consciência do que deveria fazer e já tinha expressado
isso aos discípulos mais próximos: “o nosso amigo Lázaro dorme” (v. 11). Merece
atenção aqui o possessivo plural: tudo o que Ele tinha e tem é compartilhado
com os seus, inclusive as amizades e todas as relações. Na sua comunidade não
há espaço para o individualismo: bens e afetos existem para a partilha. A
chegado após quatro dias tinha como objetivo desmascarar uma falsa crença
judaica de que até três dias após a morte, ainda era possível que o defunto
voltasse a viver, pois acreditava-se que o espírito do morto ainda sobrevoava
ao redor do cadáver. A partir do quarto dia, começava a decomposição e, portanto,
o espírito ia embora. Realizando o sinal até o terceiro dia, a “glória do Filho
de Deus” não seria manifestada, pois os presentes reconheceriam como algo
natural, conforme a crença.
A ida de Jesus teve, portanto, um objetivo muito
claro: libertar a comunidade da morte física, por um momento, e principalmente,
da doença e morte ideológica, da qual a comunidade estava ameaçada. Chamou
Lázaro para fora do túmulo (v. 43), ordenando que fosse retirada a pedra (v.
39). A pedra representa aqui, tudo o que separa a vida da morte: o medo, a
violência, a opressão e tudo o que a Lei causava de mal no seio da comunidade.
Para Jesus, a antiga Lei era sinal de morte. A ordem “Lázaro, vem para fora”
(v. 43) é o convite final que Jesus faz para a liberdade. É necessário
“desatar” (v. 44) o ser humano de tudo o que o impede de caminhar livremente em
busca da vida plena e da dignidade. É necessário sair dos povoados e dos
túmulos para caminhar com Jesus em busca de um mundo novo onde, de fato, reine
o amor e a vida triunfe!
Dia 22
Lembre-se
de que a existência humana é construída dia a dia.
Deus
concede suas dádivas aos seres humanos, por isso cabe a cada pessoa usá-las com
sabedoria, para que se transformem em dons a serviço dos irmãos.
Seja,
pois, semeador do bem e da paz!
Todas as
pessoas recebem sementes de Deus; no entanto, cabe a cada uma a missão de
preparar o terreno, semear, irrigar e fazer que dê frutos.
“E o que
semeias não é a planta já desenvolvida – como será mais tarde - mas um simples
grão, digamos, de trigo ou de qualquer outro cereal; e, de acordo com sua
vontade, Deus dá um corpo e esse grão, como dá o seu corpo particular”. (1Cor 15,37-38).




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