quarta-feira, 4 de março de 2026

EVANGELHO DO DIA 08 MARÇO 2026 - 3º DOMINGO DA QUARESMA


08 março - Quer seja comprido ou curto, quer seja bom ou mau o caminho, quer se enxergue ou não a meta com a vista humana, depressa ou devagar, contigo, ó José, estamos certos de que caminharemos sempre bem. (L 208). São José Marello


Jesus e a samaritana. - João 4,5-42

Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto da propriedade que Jacó tinha dado a seu filho José. Havia ali a fonte de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se junto à fonte. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria buscar água. Jesus lhe disse: “Dá-me de beber!” Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar algo para comer. A samaritana disse a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” Jesus respondeu: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva”. A mulher disse: “Senhor, não tens sequer um balde, e o poço é fundo; de onde tens essa água viva? Serás maior que nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual bebeu ele mesmo, como também seus filhos e seus animais?” Jesus respondeu: “Todo o que beber desta água, terá sede de novo; mas quem beber da água que eu darei, nunca mais terá sede, porque a água que eu darei se tornará nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna”. A mulher disse então a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir aqui tirar água”. [...] A mulher disse-lhe: “Eu sei que virá o Messias (isto é, o Cristo); quando ele vier, nos fará conhecer todas as coisas”. Jesus lhe disse: “Sou eu, que estou falando contigo”. Nisto chegaram os discípulos e ficaram admirados ao ver Jesus conversando com uma mulher. Mas ninguém perguntou: “Que procuras?”, nem: “Por que conversas com ela?”. A mulher deixou a sua bilha e foi à cidade, dizendo às pessoas: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?” [...] Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus por causa da palavra da mulher que testemunhava: “Ele me disse tudo o que eu fiz”. [...]

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DA QUARESMA

 João 4,5-42 (Ano A) 08 março 2026

Com a liturgia de hoje, abre-se uma sequência de três domingos de leitura de textos do Evangelho de João. Para este domingo, o primeiro da série e o terceiro da Quaresma, o texto proposto é Jo 4,5-42, o relato do episódio do encontro e o diálogo de Jesus com a mulher samaritana, um episódio exclusivo do Quarto Evangelho. Trata-se de um dos textos mais ricos de todo o Novo Testamento, tanto do ponto de vista literário quanto teológico, considerado a obra-prima de João. Devido à sua extensão, não o comentaremos versículo por versículo; procuraremos colher a mensagem central, destacando apenas alguns versículos e dados particulares mais significativos. É um texto que corresponde muito bem aos propósitos da Quaresma, enquanto itinerário catequético e processo de descobrimento da identidade de Jesus para dar-lhe adesão decidida e convicta. Nesse texto, o evangelista João mostra, mais do que nunca, o quanto o encontro com Jesus humaniza e liberta as pessoas.

Como sempre, é imprescindível recordar o contexto, tanto literário quanto histórico, para chegarmos a uma compreensão mais adequada do texto. Do ponto de vista literário, convém recordar que o episódio contado no texto faz parte de uma série de acontecimentos importantes do início do ministério de Jesus no contexto do Quarto Evangelho, desde as bodas de Caná (Jo 2,1-22), passando pelo desmascaramento do templo, transformado em casa de comércio (Jo 2,13-21), até o encontro noturno com Nicodemos, um judeu ilustre e reto (Jo 3,1-30), culminando com o encontro, em plena luz do dia, com uma mulher sem reputação, como era aquela samaritana (Jo 4,1-42), que corresponde ao evangelho de hoje. Este episódio, portanto, é o coroamento de uma sequência de eventos significativos do Evangelho de João que visam revelar a identidade de Jesus enquanto Filho de Deus e Messias. Não pode passar despercebido o fato que essa série de eventos começa e termina tendo uma mulher como principal interlocutora de Jesus: a mãe, em Caná, e a samaritana, na Samaria. Em nenhum dos casos o nome da mulher é mencionado, porque em ambas as situações ela é personificação da comunidade, tanto num estágio já de maturidade na fé – a mãe, nas bodas de Caná – quanto num processo ainda de descoberta – o caso da samaritana.

A nível de contexto histórico, é importante recordar a rivalidade que havia entre judeus e samaritanos, como o próprio texto menciona: “De fato, os judeus não se dão com os samaritanos” (v. 9b). Essa rivalidade teve a sua origem com o cisma que dividiu o único reino de Israel em dois, ficando Samaria como capital do reino do Norte, e Jerusalém como capital do reino do Sul. Após o cisma, Jeroboão I, o primeiro rei de Israel do Norte, construiu vários santuários em seu reino, para competir com o culto do templo de Jerusalém, inclusive, proibindo que sua população se dirigisse a Jerusalém para participar das liturgias do grande templo. O culto praticado nestes santuários era, obviamente, considerado ilegítimo pelos judeus. Essa ilegitimidade se acentuou ainda mais após a invasão assíria em 722 a.C.. Ora, além de deportar parte da população local, a Assíria levou povos de suas outras colônias para repovoar a Samaria e todo o reino do Norte, constituindo assim um povo mestiço, plural e sincrético. Os povos estrangeiros levaram seus costumes e tradições para a Samaria, juntamente com suas diversas práticas cultuais (cf. 2Rs 17,24-28). Tudo isso levou os judeus a considerarem os samaritanos como impuros e heréticos. É, portanto, considerando este contexto que devemos ler o evangelho de hoje. E Jesus veio para superar esse abismo histórico-ideológico, quebrando as barreiras, abrindo comunicação, ao revelar o verdadeiro rosto de Deus.

O texto começa afirmando que “Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do poço que Jacó tinha dado ao seu filho José” (v. 5). A recordação dos patriarcas em si, já é sinal de que se trata de um local importante para o povo de Israel. É um lugar que representativo, com significado expressivo para a fé do povo. O poço possui uma rica simbologia na Bíblia; é o lugar do encontro e da renovação das forças, símbolo de vida fecunda e transformação. E o evangelista acrescenta uma informação muito importante sobre o estado em que Jesus se encontrava, para enfatizar ainda mais a importância do poço no contexto do episódio: Jesus estava “cansado da viagem” (v. 6b). Essa é a única vez que um evangelista retrata explicitamente o cansaço de Jesus, o que João faz empregando o termo grego “kekopiakos” (κεκοπιακώς) para cansado. É um dado relevante pois expressa a humanidade de Jesus em sua dimensão mais profunda: um homem cansado e sedento, embora portador de uma água viva, que ao final do episódio será reconhecido como o salvador do mundo (v. 42). Cansado e sedento, Jesus não tem medo de pedir ajuda nem de relacionar-se com as pessoas, mesmo as sem reputação, que a sociedade da época excluía. Por isso, pede de beber a uma mulher samaritana que também se encontrava no poço (v. 7), demonstrando que não estava condicionado às barreiras impostas pela sociedade e a religião. Para os padrões da época, não era aconselhável para um homem conversar com uma mulher sozinha, ainda mais com uma mulher samaritana, personagem duplamente marginalizada: primeiro, por ser mulher, numa sociedade patriarcal; segundo, por ser samaritana, uma raça de gente desprezível, como os judeus consideravam.

A sede de Jesus indica sua mais intensa humanidade. E mais: numa terra quente, em pleno meio-dia, a sede é também sinal de fragilidade, impotência. A princípio, parece ser mais pretexto para abrir um diálogo transformador com aquela mulher, como ele mesmo revela que tinha uma água viva para dar, mas é acima de tudo uma demonstração da sua humanidade (v. 10). Com isso, o evangelista revela a harmonia entre o humano e o divino na pessoa de Jesus: o homem que sente sede e pede água é o mesmo que possui uma água viva, capaz de saciar eternamente. É um paradoxo desconcertante que o evangelista João mostra com uma habilidade brilhante. À medida em que o diálogo flui, a mulher chega a reconhecer Jesus como portador de um dom de Deus, a ponto de pedir-lhe da sua água viva: “Senhor, dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir até aqui para tirá-la” (v. 15). Quanto mais o diálogo se estende, mais Jesus ganha a confiança da mulher, levando-a à sinceridade, inclusive, reconhecendo a ilegitimidade de sua união com um esposo ilegítimo, o sexto marido, o que é imagem das diversas divindades com as quais a Samaria já entrou em relação (vv. 16-18). De fato, entre os cinco maridos anteriores daquela mulher e o da época do encontro com Jesus, os estudiosos identificam a idolatria da Samaria, associando os países dominantes e as divindades adoradas. Revelando sua identidade pecadora, a mulher demonstra também o desejo de conversão, embora a religião não lhe seja favorável, causando-lhe confusão acerca da verdadeira adoração; ela não sabe onde e nem como prestar o culto verdadeiro (vv. 19-20). Jesus se interessa cada vez mais pela causa da mulher samaritana, como se interessa pela causa de toda pessoa marginalizada; declara que não importa o lugar do culto, mas a qualidade (vv. 21-24).

Independentemente do lugar de culto que frequentasse, aquela mulher seria vítima de preconceitos e discriminações. Consciente disso, Jesus lhe indica o culto verdadeiro: a “adoração em espírito e verdade” (v. 24). Ao contrário do que muitas interpretações afirmam, essa adoração não significa um culto intimista, pessoal e sincero, mas sim um culto ao Pai que passe pelo Espírito Santo e pelo próprio Jesus, e culmina em obras de amor. O “Espírito”, aqui, é o dom de Deus, a água viva que Jesus possui e a destina à toda a humanidade, é o mesmo Espírito que ele, ressuscitado, soprará sobre os discípulos; a “verdade” é a sua própria pessoa enquanto plenitude da revelação, ou seja, de tudo o que o Pai tem a dizer à humanidade inteira. A adoração em Espírito e em verdade, portanto, é a relação nova que se inaugura entre Deus e a humanidade: não mais intermediada pela Lei e nem pelos sacerdotes dos templos, mas pelo Espírito Santo e Jesus. Esse culto é acessível a todas as pessoas, de todos os tempos e lugares, e terá como sinal de autenticidade as obras de amor geradas a partir dele.

Enquanto a mulher samaritana dava adesão a Jesus, por meio do diálogo fluente, os discípulos que já conviviam com ele há mais tempo continuavam presos à mentalidade antiga, certamente imposta pela religião, por isso, se admiraram com sua atitude dele falar com uma mulher (v. 27). Por sinal, o diálogo é a principal chave de leitura deste episódio e de toda mensagem e vida de Jesus. Enquanto Palavra eterna (Jo 1,1-18), ele veio ao mundo para o Pai dialogar com a humanidade de modo transparente, claro. E ele demonstrou isso com sua práxis, da qual o evangelho de hoje pode ser considerado uma síntese. Os discípulos ainda estavam condicionados aos preceitos da Lei e fechados ao Espírito. Andavam com Jesus, mas não tinham ainda sido saciados pela água viva que ele tinha a oferecer, certamente porque não tinham ainda tanta disponibilidade para dialogar, pois só conhece Jesus quem dialoga com ele. A samaritana dialogou, por isso conheceu e se transformou. Convicta de ter encontrado sentido para a sua vida no encontro com Jesus, a mulher toma uma atitude decisiva e fundamental: “deixou o seu cântaro e foi à cidade” (v. 28) para anunciar a experiência vivida. Deixar o cântaro significa abandonar a Lei para aderir ao Espírito e ao programa de vida de Jesus. É a passagem ao discipulado; de mulher rejeitada e excluída, ela se tornou discípula e anunciou, convidando os demais a fazerem a mesma experiência que ela tinha acabado de fazer, convencendo toda a cidade a buscarem o mesmo (v. 28-30). A fé autêntica e verdadeira é contagiante, inevitavelmente se espalha. É importante recordar que em momento algum Jesus a repreendeu pelos erros passados; levou-a a reconhecer quantos maridos teve, porém, sem incriminá-la; o resultado foi uma conversão autêntica, o que os discípulos pareciam ainda não ter experimentado, como dá a entender pela sutil advertência que Jesus lhes faz com uma pequena parábola da colheita (vv. 34-38). A colheita abundante é a fé dos samaritanos, a adesão dos que estavam distantes, confirmando que Jesus rompe barreiras e todos os muros de separação, religiosos e ideológicos, para quem se deixa encantar pela sua pessoa e a sua mensagem.

O desfecho da história é uma grande adesão causada, inicialmente, pelo testemunho da mulher (v. 39) e, em seguida, pela experiência pessoal que cada um fez (v. 42), culminando com o reconhecimento de Jesus como o Salvador do mundo. Os judeus esperavam um messias nacionalista, restaurador do reino de Israel; os samaritanos reconhecem Jesus como Salvador do mundo. São duas visões bem diferentes entre si, que revelam as diferenças entre quem permanece preso aos preceitos da Lei, sem coragem de abandonar o cântaro, ou seja, de mudar de vida, e quem reconhece a necessidade de beber da água viva que Jesus doa. Enquanto o cântaro da Lei aprisiona, a água viva que Jesus doa liberta e sacia. Os samaritanos, povo marginalizado e impuro para os judeus, proporcionam a primeira adesão comunitária à pessoa de Jesus: o testemunho da mulher contagiou a cidade inteira. Sentindo o peso da rejeição e marginalização impostas pela religião, os samaritanos acolheram o dom de Deus revelado por Jesus e destinado a todos e todas, especialmente aos mais rejeitados.

O encontro transformador de Jesus com a samaritana, portanto, deve ser parâmetro para nossa relação com ele e para todo processo de descoberta e crescimento na fé. A mulher samaritana progrediu na fé gradualmente. Inicialmente, Jesus era apenas um judeu viajante cansado e com sede, visto com suspeitas por ela, inclusive. Com a fluência do diálogo, ela foi transformando sua percepção sobre ele, chegando a reconhecê-lo como um profeta (v. 19), um homem de conhecimentos excepcionais (v. 29) e, finalmente, como o Messias. Ela fez a própria descoberta porque abriu diálogo e Jesus se deixa conhecer por quem dialogo com ele. Que a Quaresma nos ajude a encontrar Jesus e nos abra ao diálogo transformador, deixando-nos humanizar por ele.

Dia 08

Nesse momento, como está se sentindo?

Se estiver triste ou desanimado, não se esqueça de rezar.

Uma pessoa deprimida, mas otimista, melhora mais rápido que uma depressiva e sem esperanças.

Quem pensa e age com pessimismo agrava ainda mais sua enfermidade.

Em suas orações, peça que Deus remova de sua mente as atitudes causadoras de depressão e pessimismo.

Nada lhe é impossível.

Confie sempre em Deus!

Ele tudo pode e quer curá-lo!

Entregue-se a ele e dedique um pouco do seu tempo aos irmãos.

“Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: ´Coragem, filha! A tua fé te salvou´.

E a mulher ficou curada a partir daquele instante”. (Mt 9,22).

 


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