EVANGELHO DO DIA 3 MAIO 2026 - 5º DOMINGO DA PÁSCOA
03 maio - Espelhemo-nos constantemente em Maria, esforcemo-nos para imitar suas virtudes e, como quem contempla um lindo quadro fica arrebatado e encantado com ele e já não pode despregar dele os olhos, assim deve acontecer conosco ao contemplarmos Maria. (S 235). São José Marello
Evangelho:
Leitura do santo Evangelho segundo São João 14,1-12
""Não se perturbe o vosso coração!
Credes em Deus, crede também
Reflexão para o 5º Domingo da Páscoa
- João 14, 1-12 (Ano A) 03 maio 2026
Neste quinto domingo da Páscoa, o texto evangélico proposto pela liturgia é João 14,1-12. Trata-se de um trecho do grande discurso de Jesus na última ceia com seus discípulos. Apesar de não descrever os gestos de consagração do pão e do vinho, João é o evangelista que mais deu importância à última ceia de Jesus, dedicando-lhe nada menos que cinco capítulos, o que corresponde a um quarto de todo o seu Evangelho (Jo 13–17). Respondendo às necessidades concretas das comunidades cristãs da Ásia Menor, na última década do primeiro século, marcadas pela perseguição e com tendência ao desânimo na vivência da fé, o evangelista reuniu em um grande discurso os principais elementos de todo o ensinamento de Jesus. Esse discurso é considerado o “testamento de Jesus”; logo, o seu conteúdo é imprescindível para as comunidades cristãs de todos os tempos.
Para compreendermos melhor o trecho lido hoje, é necessário
recordar o que lhe antecede, no contexto narrativo da última ceia. E
encontramos quatro acontecimentos precedentes que, de certo modo, condicionam o
texto de hoje: o lava pés ou o mandamento do serviço (Jo 13,1-15), o anúncio da
traição de Judas e seu desligamento do grupo (Jo 13,21-30; ), a entrega do
mandamento do amor por Jesus (Jo 13,31-35), e o anúncio da negação de Pedro (Jo
13,36-38). A isso, soma-se o fato de Jesus ter declarado que tinha chegado a
sua hora de partir para o Pai (Jo 13,31-33), e os discípulos, lamentavelmente,
compreendiam a sua partida como perda definitiva, como ausência e fim. Tudo
isso deixou os discípulos desanimados e inquietos; a ceia tinha perdido o seu
clima festivo. Jesus tenta recuperar a alegria e o entusiasmo dos discípulos
com a continuidade do seu discurso.
Olhando para o texto, percebemos que as palavras
iniciais de Jesus denunciam a inquietação e o mal-estar que havia entre os
discípulos naquele momento: “Não se perturbe o vosso coração” (v. 1a). A
agitação no coração é sinal de tristeza e confiança abalada. Significa que há
uma situação difícil de ser aceita e compreendida. É interessante que, embora
fale para todo o grupo dos discípulos, Jesus se refere ao coração (em grego: καρδία –
kardía) no singular. Com isso, o evangelista evidencia a
importância da unidade da fé na
comunidade. Apesar dos conflitos internos, a comunidade não pode desistir de
ter um só coração, ou seja, um mesmo amor e um único mandamento.
Mais do que um conforto intimista e individual,
Jesus quer assegurar a unidade. Ora, a comunidade estava abalada e suscetível
de rivalidades e exclusões; havia um clima de desconfiança entre eles,
sobretudo após a saída de Judas e o anúncio da negação de Pedro (cf. 13,21-30;
36-38). O princípio da unidade na comunidade é a fé em Deus e no próprio Jesus.
Por isso, ele pede que os discípulos lhe renovem a adesão plena, com uma fé
renovada: “Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (v. 1b). O tema da fé é
muito caro ao evangelho de João. Somente nesse texto de hoje, o verbo que
expressa fé e confiança (em grego: πιστεύω –
pistêuo), aparece cinco vezes (vv. 1.11.12). O
evangelista está ensinando também que a fé em Deus e a fé em Jesus são uma
única fé.
Na continuação, Jesus reforça cada vez mais a importância
da comunidade cristã, apresentando-a como a nova casa do Pai, uma vez que a
antiga, o templo, fora transformada em casa de negócio (cf. Jo 2,16). Por isso,
a afirmação categórica e firme: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim
não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós” (v. 2). Essa é
uma das afirmações mais revolucionárias de todo o Quarto Evangelho, embora
tenha sido muito mal compreendida ao longo dos séculos. Ao contrário do que
parece, Jesus não está se referindo ao céu enquanto morada do Pai, e nem
prometendo reservar lugares para os seus discípulos lá. Ele está, na verdade,
fazendo uma mudança radical de paradigma: a nova casa do Pai é a comunidade
cristã, na qual há espaço para todos e todas, compreendendo a diversidade de
dons e carismas.
No templo de pedras, a antiga casa de Deus, havia
uma única morada. As pessoas iam até lá para encontrar-se com Deus, mas somente
Ele habitava lá, como ensinava a religião. No diálogo com a Samaritana, Jesus
já tinha antecipado que aquele modelo de religião estava com os dias contados,
uma vez que chegaria o tempo de adorar a Deus somente em espírito e em verdade
(Jo 4,21-24); esse tempo novo instaura-se com a ressurreição, compreendida como
a construção definitiva da morada de Deus na humanidade (Jo 2,19-22), através
da extensão do corpo do Ressuscitado que é a comunidade cristã. Ao invés de ir
ao templo para encontrar-se com Deus, devemos acolhê-lo em nossa vida, uma vez
que é Ele que vem ao nosso encontro, numa relação oposta ao que ensinava a
antiga religião.
Jesus diz que “vai preparar” porque é a sua
ressurreição que inaugura essa nova relação; por isso, garante: “E quando eu
tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que
onde eu estiver estejais também vós” (v. 3). Mais uma vez, recordamos que Ele
não está prometendo transportá-los de um lugar para outro, mas conduzi-los a
uma nova condição de vida, dando a certeza de que, acolhendo o ressuscitado com
fé, a comunidade estará em relação contínua com o Pai. Mais do que levar a
comunidade para Deus, na verdade Jesus traz Deus para a comunidade; essa será a
casa do Pai quando nela vigorar a lei do amor e sua aplicação prática, o
serviço.
Considerando tudo o que já havia ensinado,
imaginava Jesus que os discípulos já conhecessem o caminho: “E para onde eu
vou, vós conheceis o caminho” (v. 4); esse caminho é a sua própria vida,
marcada pelo amor ilimitado e incondicional. No entanto, a incompreensão
persiste nos discípulos, dominados pelos ideais messiânicos triunfalistas e
incapazes de reconhecer o amor e a doação da vida como os únicos meios para uma
relação autêntica com Deus. Com muita sinceridade, Tomé confessa a sua
ignorância diante do que está sendo anunciado e vivido por Jesus: “Tomé disse a
Jesus: ‘Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o
caminho?” (v. 5). De fato, ele não compreendia a morte de Jesus como passagem
para uma presença permanente no meio da comunidade; ele via a morte como o fim,
embora seja louvável a sua coragem para enfrentá-la, como havia demonstrado já
no episódio da reanimação de Lázaro: “Nós iremos para morrer com ele” (Jo
11,16).
O questionamento de Tomé se torna uma oportunidade
para Jesus fornecer uma das mais profundas revelações de si: “Jesus respondeu:
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v.
6). Com a declaração “Eu sou” (em grego: Εγώ είμι – egô eimí)
Jesus reafirma a sua condição
divina, pois essa é a fórmula de revelação do Deus do Êxodo, o Deus libertador
(Ex 3,13ss); por sinal, o uso dessa fórmula é muito frequente no Evangelho de
João, mas essa é a única vez em que vem seguida de três predicados: Caminho,
Verdade e Vida. Embora pareça enigmática, essa tríplice predicação é bastante
simples. Ora, Jesus está propondo um modelo de vida para uma comunidade, o que
pode levantar muitas dúvidas e questões, uma vez que Ele não escreve nenhuma
regra, não estabelece nenhuma lei e não deixa nenhuma doutrina. Isso gera
dúvidas e medo nos discípulos: como se comportar após a partida de Jesus? Quais
os parâmetros a seguir? Para simplificar, Jesus diz que ele mesmo é tudo o que
a comunidade necessita, é Ele o parâmetro, a sua pessoa.
Ao apresentar-se como Caminho, Verdade e Vida,
Jesus apenas diz que é tudo para a comunidade e essa não pode buscar nem viver
algo que não esteja em consonância com a sua pessoa. O itinerário a ser
percorrido pela comunidade cristã é a sua trajetória de vida, a verdade a ser
transmitida é a sua própria pessoa e a vida a ser vivida é aquela que Ele viveu
e doou em abundância, marcada pela liberdade, dignidade e amor. É claro que na
tradição bíblica encontramos significados aprofundados para cada um destes
termos: caminho, verdade e vida. Porém, o evangelista aplica aqui no sentido
prático dos termos: sem Ele a comunidade não tem rumo, não tem o que anunciar
e, consequentemente, não tem também razão para viver e existir, uma vez que sem
Ele não há relação nem conhecimento de Deus, o Pai. Portanto, se auto
declarando como Caminho, Verdade e Vida, Jesus diz que é tudo para a comunidade
cristã e essa não pode alimentar-se de nada além da sua pessoa.
Na sequência, Jesus reafirma sua unidade com o Pai
em tom de advertência e lamento pela falta de perspicácia dos discípulos: “Se
vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e
o vistes” (v. 7). Num único versículo, o mesmo verbo conhecer aparece três
vezes. Não se trata de um conhecimento intelectual, mas de uma experiência de
intimidade e amor. O conhecimento de Deus não é fruto do intelecto, mas de uma
disposição para amar e ser amado. Jesus está denunciando a falta de amor nos
discípulos, até aquele momento. Se ainda não conheciam a Jesus e ao Pai, é
porque ainda não estavam amando verdadeiramente, o que se evidencia pela
intervenção de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” (v. 8).
Como se vê, persistia nos discípulos a
incompreensão e não aceitação da unidade entre Jesus e o Pai. Isso mostra, mais
uma vez, que eles tinham dificuldade de aceitar e assimilar um Deus presente na
história e relacionando-se diretamente com o seu povo, e é exatamente esse Deus
que Jesus nos revela. Por isso, a resposta a Filipe é uma espécie de desabafo
de Jesus, em tom de lamentação e repreensão: “Há tanto tempo estou convosco, e
não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes:
‘Mostra-nos o Pai?” (v. 9). Ora, Filipe foi um dos primeiros discípulos
chamados por Jesus (Jo 1,43); certamente, presenciou todos os sinais
realizados, mesmo assim não tinha ainda assimilado Jesus como revelador do Pai.
Toda a vida de Jesus é revelação de Deus; em tudo o
que faz, ele revela o Pai porque os dois vivem uma unidade perfeita: “Não
acreditas que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo,
não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as
suas obras” (v. 10). Os discípulos devem perceber essa unidade pelo amor
incondicional de Jesus, expresso em suas palavras e ações. Como último
critério, ou seja, quando a vida de Jesus marcada pelo amor incondicional não
for capaz de convencer, que pelo menos considerem as suas obras, os sinais
realizados, para reconhecê-lo como Um com o Pai: “Acreditai-me: eu estou no Pai
e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras” (v.
11). É importante essa recomendação: as obras são o último critério para a fé.
O primeiro critério é o amor envolvido e a certeza da vida abundante.
A propósito das intervenções de Tomé e Filipe, vale
a pena ressaltar a importância que isso significa para a comunidade joanina e,
obviamente, para as comunidades cristãs de todos os tempos. É perceptível que o
Evangelho de João concede a palavra a discípulos que não fazem parte do trio
predominante na tradição sinótica: Pedro, Tiago e João. No Quarto Evangelho,
discípulos “secundários” para os sinóticos, como André, Filipe e Tomé, tem um
certo protagonismo (Jo 2,35-51; 11,26; 20,19-27), sendo que o principal de
todos os discípulos é um anônimo: o discípulo amado. Esse detalhe revela um
cuidado do evangelista em relação à organização da comunidade e uma precaução
com as tendências hierarquizantes. Na comunidade onde reina o amor, todos têm
espaço, inclusive para questionar. O que importa é que o amor fraterno seja
vivido.
Certamente, é vivenciando o mandamento do amor,
estabelecendo relações fraternas e sinceras, cultivando a igualdade e a
fraternidade que a comunidade poderá, não apenas repetir, mas realizar obras
maiores que aquelas que o próprio Jesus fez; é Ele mesmo quem dá essa garantia (v.
12). A confiança e fé em suas palavras credencia a comunidade a manifestar a
sua presença e, consequentemente, a presença do Pai, tornando sua obra
ilimitada temporal e espacialmente; isso implica em compromisso para nós,
cristãos de hoje: não devemos apresentar o Evangelho como uma história a ser
contada, mas como um caminho a ser percorrido, uma verdade a ser anunciada e,
principalmente, uma vida a ser vivida, marcada pelo amor, acolhimento e perdão
para, de fato, ser uma vida em abundância (cf. Jo 10,10).
Dia 03
Faça hoje
a experiência de calar por amor.
Procure
ouvir as batidas de seu coração e a voz de Deus no mais íntimo de seu ser.
Desligue-se
de toda agitação e ruídos externos.
Eleve seu
coração a Deus.
Agradeça!
Louve!
Peça-lhe
perdão! Entregue-se a ele.
Sinta seu
amor maravilhoso e infinito.
Quando
estiver sozinho e em silêncio, entre em comunhão com Deus, que habita no mais
íntimo de seu ser, e sinta o seu amor.
“Bendito
seja o Deus e o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e
Deus de toda consolação”. (2Cor 1,3).


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