5 abril - Não há tempo nem lugar onde não seja possível fazer alguma coisa. Cada palavra, cada passo, cada desejo, pode ser a matéria prima dos interesses de Jesus. (L 76). São José Marello
João 20,1-9 - 05 abr 2026
"Domingo bem cedo, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi até o túmulo e viu que a pedra que tapava a entrada tinha sido tirada. Então foi correndo até o lugar onde estavam Simão Pedro e outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse: - Tiraram o Senhor Jesus do túmulo, e não sabemos onde o puseram!
Então Pedro e o outro discípulo foram até o túmulo. Os dois saíram correndo juntos, mas o outro correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro. Ele se abaixou para olhar lá dentro e viu os lençóis de linho; porém não entrou no túmulo. Mas Pedro, que chegou logo depois, entrou. Ele também viu os lençóis colocados ali e a faixa que tinham posto em volta da cabeça de Jesus. A faixa não estava junto com os lençóis, mas estava enrolada ali ao lado. Aí o outro discípulo, que havia chegado primeiro, também entrou no túmulo. Ele viu e creu. (Eles ainda não tinham entendido as Escrituras Sagradas, que dizem que era preciso que Jesus ressuscitasse.) E os dois voltaram para casa."
O primeiro versículo apresenta o retrato da
comunidade antes de vivenciar a experiência da ressurreição: “No primeiro dia
da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando
ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (v. 1). O
“primeiro dia da semana” é o dia seguinte ao sábado, último dia da antiga
criação. Com essa expressão, o evangelista indica que há uma nova criação em
curso; um novo tempo e um novo mundo estão sendo gestados, mas ainda está na
etapa primordial, o caos, simbolizado pela expressão “quando ainda estava
escuro”; o escuro, como sinônimo de caos, fora constatado também na primeira
criação (cf. Gn 1,1-2). Na verdade, o indicativo temporal “bem de madrugada” e
seu complemento enfático “quando ainda estava escuro” significam muito mais que
um dado cronológico; é o indício da mentalidade da comunidade naquelas
circunstâncias. A ausência de Jesus e a procura pelo seu corpo na morada dos
mortos, o túmulo, reflete uma realidade de trevas na comunidade. Essa situação
de trevas não se deve à ausência da luz física, mas significa que a vida não
está triunfando na comunidade, ou seja, a morte está prevalecendo. Trevas é
ausência de vida e de esperança, sobretudo na teologia de João.
Sem a experiência do Ressuscitado, a situação da
comunidade é caótica, pois essa fica sem rumo, sem saber o que fazer, como
vemos na postura de Maria Madalena: “Então, ela saiu correndo e foi encontrar
Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram
o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram” (v. 2). A pressa e as palavras
de Maria Madalena indicam uma situação de quase desespero. Embora o texto de
João registre apenas a ida de Maria Madalena ao sepulcro, é mais provável que
tenha sido um grupo de mulheres, como consta nos evangelhos sinóticos (cf. Mt
28,1; Mc 16,1; Lc 24,1); João cita somente a Madalena para recordar o
protagonismo dela na comunidade primitiva e para delimitar o número três com os
dois discípulos mencionados (Pedro e o Discípulo Amado), dando uma ênfase
teológica maior ao fato, indicando uma comunidade, pois o número três significa
completude.
Ir ao túmulo é a atitude de quem acredita que a
morte triunfou, pois o túmulo é a morada dos mortos, é um depósito de cadáver,
mas é também uma manifestação de amor por aquele que julgava estar morto. A
surpresa e o espanto de Maria Madalena são causados exatamente pela ausência do
cadáver no túmulo. A cultura da morte e o desânimo estavam tão presentes na
mente dos discípulos que nem mesmo a pedra removida do túmulo fora suficiente
para animá-los. De fato, a remoção da pedra e a ausência do corpo de Jesus
causaram, inicialmente, preocupação e espanto, ao invés de alegria e esperança.
Na fala de Maria Madalena vem expressa a falência da comunidade: mesmo
reconhecendo Jesus como “Senhor”, ela sente a falta de um cadáver; quer saber
onde está o corpo morto para reverenciá-lo, provavelmente com os perfumes, e
chorar junto dele. É a situação de quem ainda estava agindo na escuridão, sem
reconhecer o novo dia que estava para nascer.
Com o aviso de Maria Madalena, também Pedro e o
Discípulo Amado tomam a iniciativa de ir ao túmulo para conferir a veracidade
da informação, uma vez que a palavra da mulher não era digna de credibilidade
naquela sociedade: “Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo”
(v. 3). Continuando, diz o texto que “Os dois corriam juntos, mas o outro
discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo” (v. 4). A
pressa do Discípulo Amado revela sua fidelidade, testada e comprovada aos pés
da cruz (cf. 19,25-27), característica da pessoa amada. Somente quem fez uma
autêntica e profunda experiência de amor com o Senhor é capaz de opor-se ao
clima de morte reinante na comunidade, por isso, esse discípulo é anônimo; o
evangelista não lhe dá um nome, mas apenas um adjetivo: amado.
Os personagens anônimos no Evangelho segundo João
têm a função de paradigmas para a sua comunidade e os seus leitores de todos os
tempos; assim, todo aquele que ler esse evangelho deve tornar-se um “discípulo
amado” também. Ele, o Discípulo Amado chegou primeiro e comprovou que a
informação da Madalena era verídica: “viu as faixas de linho no chão, mas não
entrou” (v. 5). À pressa do Discípulo Amado opõe-se a lentidão e o desânimo de
Pedro, após ter sido tão incoerente com o Mestre na fase final de sua vida:
opôs-se a ele na ceia, no momento do lava-pés (cf. Jo 13,6-8), e o negara
durante o processo (cf. Jo 18,15-27). A falta de motivação de Pedro foi,
certamente, marcada pelo remorso da negação e outras incoerências, o que será
transformado quando experimentar o Ressuscitado em sua vida.
O Discípulo Amado, embora tenha chegado primeiro,
espera que Pedro também o chegue e faça a sua experiência: “Chegou também Simão
Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho no
chão” (v. 6). Tendo entrado no túmulo, Pedro comprova a ausência do corpo de
Jesus e, certamente, faz uma longa reflexão a respeito de tudo o que tinha
acontecido nos últimos dias. Embora a tradução litúrgica diga que ele “viu” as
faixas de linho, o evangelista emprega um verbo de significado muito mais
profundo: “contemplar” (em grego: θεωρέω theorêo),
o que significa mais que simplesmente ver; inclusive, desse verbo grego deriva
a palavra teoria, como consequência de uma observação profunda: um olhar
contemplativo, processado na mente e no coração.
Depois de Pedro, entra também o Discípulo Amado no
túmulo. Tendo chegado primeiro, poderia ter entrado logo, mas preferiu esperar
que Pedro chegasse e entrasse logo. Não se trata de uma preeminência de Pedro,
como sugerem algumas interpretações, uma vez que na comunidade joanina não
ainda havia espaço para hierarquia, como Jesus mesmo deixou claro no lava-pés;
era na verdade uma questão de necessidade: quem, de fato, necessitava de uma
experiência mais forte era Pedro, pois, depois de Judas, foi o discípulo que
mais tinha fracassado até então, impondo sempre resistências aos propósitos de
Jesus, além da negação durante o processo. Já o Discípulo Amado tinha feito uma
experiência autêntica com o Senhor durante toda a sua vida, por isso, “viu e
acreditou” (v. 8); não se deixou vencer pelos sinais de morte vistos dentro do
túmulo, mas reforçou ali a sua fé.
Para Pedro, foi necessário um pouco mais de tempo,
pelo menos algumas horas, para convencer-se de que o Senhor ressuscitou e vive
(cf. Jo 20,19ss). Mas, os sinais estão apontando para isso: interiormente, ele
já estava “teorizando” sua fé, reconstruindo-a lentamente, uma vez que os
acontecimentos do lava-pés ao julgamento de Jesus foram muito fortes e deixaram
suas expectativas bastante comprometidas. Será o próprio Senhor Ressuscitado a
ajudá-lo no processo de reconstrução da fé, posteriormente, com a tríplice
pergunta: “Pedro, tu me amas?” (cf. Jo 21,15-19). Sem amor, não há discipulado
e, muito menos, experiência pascal. As percepções diferentes do sepulcro vazio
por Maria, Pedro e o Discípulo Amado são sinais da diversidade que marca
comunidade cristã desde os seus primórdios. Os três viram o mesmo fenômeno, mas
cada um reagiu à sua maneira: Maria com espanto e choro (cf. Jo 20,11), Pedro
com silêncio, e o Discípulo Amado com fé. Embora a dimensão comunitária da fé
seja indispensável, as experiências de percepção e reação diante do mistério
são sempre pessoais e devem ser respeitadas.
É o conhecimento da Escritura que, gradativamente,
vai habilitando a comunidade a crer na ressurreição (v. 9), pois é na Escritura
que os planos de Deus são indicados e conhecidos. A fé de Pedro, de Maria
Madalena e dos demais será reformulada aos poucos, a cada “primeiro dia” quando
se reunirem para a comunhão fraterna, compreendendo a partilha do pão e a
leitura da Escritura. A comunidade que não coloca a Escritura no centro da sua
existência, tende a repetir a situação inicial desanimadora de Maria Madalena,
pois sem a Escritura “não sabemos onde está o Senhor” (v. 2).
A propósito de Maria Madalena, é necessário
considerar o fato de todos os evangelistas mencionarem as mulheres como as
primeiras personagens dos acontecimentos do “primeiro dia”; mesmo não
acreditando em primeira hora, é a partir da visão e das palavras delas que a
ressurreição vai se tornando realidade na vida da comunidade. Ora, se os
evangelistas, e João em particular, pretendem apresentar uma nova criação, a
gestação de um novo mundo e um novo tempo, é imprescindível que o papel da
mulher seja evidenciado. Mulher é sinônimo de vida nova, pois ela é, por
excelência, geradora de vida. Mesmo quando a vida nova não é gerada no ventre
de uma mulher, como no caso extraordinário da ressurreição, mas é da intuição e
da perspicácia de uma mulher (ou de várias, como nos evangelhos sinóticos) que
brotam as razões para a constatação dessa nova vida. Se na antiga criação a
mulher não passava de uma companhia para o homem, na nova criação ela assume um
protagonismo ímpar: é a primeira a ver e a falar.
Além da compreensão da Escritura, é necessária a
experiência do amor autêntico para a fé e o encontro com o Ressuscitado. O
Discípulo Amado já tinha completado essas duas etapas, por isso, somente Ele
acreditou em primeira mão, pois foi capaz de ler os sinais do sepulcro aberto e
o corpo ausente à luz do amor e das Escrituras. Só crê num primeiro momento
quem ama e sente-se amado, como aquele Discípulo sem nome, ao qual o
evangelista quer que todos os seus leitores se assemelhem! Assim, concluímos
voltando para o nosso início: a ressurreição não pode ser descrita, pode apenas
ser experimentada. Para isso, é necessário fazer a experiência do amor profundo
e do conhecimento da Escritura.
Dia 05
Você já
ouviu esta frase: “Águas passadas não movem moinhos”?
Isso
significa que o que passou não volta mais.
Mesmo que,
no passado, tenha sofrido muito, mantenha a confiança no presente e no futuro.
Infelizmente,
muitas pessoas vivem o hoje presas ao ontem; com isso, perdem muitas
oportunidades concedidas pelo agora.
Procure
pensar em coisas boas!
Aproveite
o momento atual!
Jamais
fique remoendo o que passou.
Acolha o
presente como um dom.
“Só em
Deus repousa a minha alma; dele vem minha salvação.
Só ele é
meu rochedo e minha salvação, minha rocha de defesa: jamais vou vacilar”. (Sl
62[61],2-3).


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