EVANGELHO DO DIA 26 ABRIL 2026 - 4º DOMINGO DA PÁSCOA
26 - Numa espantosa variedade de modos se destrói o Reino de Deus. Esforcemo-nos para fazer em toda parte o nosso trabalho de restauração com o auxílio do Céu. (L 76). São José Marello
João 10,1-10
"Jesus, o pastor verdadeiro
Jesus disse: - Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem não entra no curral das ovelhas pela porta, mas pula o muro é um ladrão e bandido. Mas quem entra pela porta é o pastor do rebanho. O porteiro abre a porta para ele. As ovelhas reconhecem a sua voz quando ele as chama pelo nome, e ele as leva para fora do curral. Quando todas estão do lado de fora, ele vai na frente delas, e elas o seguem porque conhecem a voz dele. Mas de jeito nenhum seguirão um estranho! Pelo contrário, elas fugirão, pois não conhecem a voz de estranhos.
Jesus fez esta comparação, mas ninguém entendeu o que ele queria dizer.
Então Jesus continuou: - Eu afirmo a vocês que isto é verdade: eu sou a porta por onde as ovelhas passam. Todos os que vieram antes de mim são ladrões e bandidos, mas as ovelhas não deram atenção à voz deles. Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo; poderá entrar e sair e achará comida. O ladrão só vem para roubar, matar e destruir; mas eu vim para que as ovelhas tenham vida, a vida completa."
Reflexão para o 4º Domingo da Páscoa
- João 10, 1-10 (Ano A)26 abril 2026
Todos os anos, o evangelho do quarto domingo da páscoa é tirado do capítulo décimo do Evangelho segundo João, no qual Jesus se autodefine como o único, bom e verdadeiro pastor das ovelhas. Por isso, esse domingo foi intitulado de “domingo do pastor” e, oportunamente, o Papa Paulo VI o instituiu também como o “dia mundial de oração pelas vocações”, no ano de 1964. No entanto, no texto deste ano, o ano A do ciclo litúrgico – Jo 10,1-10 – Jesus ainda não é apresentado diretamente como pastor, mas como porta única por onde devem passar ovelhas e pastores. Ele só começa a ser apresentado como pastor a partir do primeiro versículo que sucede ao texto de hoje (Jo 10,11). Curiosamente, o termo ovelhas (em grego: πρόβατα – próbata) aparece sete vezes no texto de hoje, e é em função das ovelhas que o pastor existe.
Faremos hoje a contextualização em dois níveis: num
nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e,
em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no
conjunto do Quarto Evangelho. A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça
do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como
um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não
corresponde exatamente em nada ao décimo capítulo do Evangelho de João. Ora,
aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem
de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (cf. Lc 15,1-7). A imagem de
pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz
ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O
pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas
ovelhas e se deixa conhecer por elas.
Também é importante recordar que a figura do pastor
sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo
Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram
funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente.
Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se
desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas.
Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos
pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o
(povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar
ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11). Jesus atualiza a perspectiva do profeta:
sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo
e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com
os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado,
ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de
Jesus está na reação dos líderes judeus após esse discurso: uns diziam que ele
estava endemoniado (cf. Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (cf. Jo 10,39). A
mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e
às suas economias, explorando o povo ao invés de protege-lo.
A nível de contexto literário, é oportuno recordar
que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio
da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito com os
fariseus (cf. Jo 9,1-41). Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto
libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por
isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso,
continuou sua investida para desmascará-los. É clara a relação entre os dois
textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos
falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao
único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida
em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a
partir da imposição e do medo. O cenário da narrativa é a cidade de Jerusalém,
provavelmente as imediações do templo. Olhemos, pois, para o texto.
A fórmula solene de introdução empregada pelo autor, (em grego: αμήν, αμήν – amén, amén) traduzida por “Em verdade, em verdade” (v. 1), indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus, funcionando como uma chamada de atenção aos interlocutores para a importância do que está para ser dito. Logo, o conceito de pastor apresentado no décimo capítulo de João é vital para a comunidade cristã; é algo não pode ser esquecido e nem distorcido. À introdução solene, segue a declaração: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores, os fariseus (cf. 9,40-41); assim, ele aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrões e bandidos.
Logo no primeiro versículo, a tradução litúrgica
deixa a desejar em duas ocorrências: ao invés de redil, o termo mais apropriado
seria átrio ou pátio (em grego: αυλή – aulê); não se
trata propriamente de um curral, mas do átrio
interno do templo de Jerusalém.
Também a palavra assaltante não corresponde à
ideia do autor; inclusive a prática de assaltar já está contemplada na palavra
ladrão. Ao invés de assaltante o termo mais adequado é bandido, pois
corresponde melhor à palavra grega empregado pelo autor (ληστής –
lestês), a qual designa mais a pessoa que pratica
violência. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da
denúncia. Ora, as denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de
seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da
chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos
do texto de hoje são os mesmos que tinham ajudado a transformar “a casa do Pai
em uma casa de negócio” no início do Evangelho (cf. 2,16). São ladrões e
assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão
ali, mas não entraram pela porta.
Ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, “quem
entra pela porta, é o pastor das ovelhas” (v. 2), e esse alguém é o próprio
Jesus. De fato, somente Ele recebeu permissão do Pai para comunicar-se
diretamente com as ovelhas, o povo. A Jesus, o único pastor autêntico, “o
porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e
as conduz para fora” (v. 3); é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no
recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo
poder religioso. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da
voz de Jesus, contida somente no Evangelho; quem realmente escuta o Evangelho,
não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso ou
político, mesmo que esse se autodenomine cristão. Assim como a comunidade
joanina, também as de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando
não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem repulsar e rejeitar sem
medo.
O pastor autêntico “chama as ovelhas pelo nome e as
conduz para fora”, ou seja, não trata o povo como massa, mas o tira do
anonimato, valorizando a cada um em sua individualidade e liberdade, por isso,
chama pelo nome, criando um laço de intimidade. A relação já não é mais entre
dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam
reciprocamente. “Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o
povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e
até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua
voz; o evangelista usa aqui o mesmo verbo do êxodo. Jesus quer, portanto, promover
um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão nociva
para o povo quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.
É interessante perceber o objetivo da libertação
proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, “ao fazer sair
todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz”
(v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para
começar a dominar também; domínio e imposição não fazem parte da sua práxis.
Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, Ele “caminha
à frente” e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem
aceitar o Evangelho como proposta de libertação, o seguirá tranquilamente por
conhecer uma voz autêntica. Antes de tudo, é para a liberdade que ele aponta e
conduz. Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a
comunidade cristã, para que na mesma não surjam líderes impostores. Onde a voz
do Evangelho é conhecida, não há dominadores e dominados, e será esse o traço
característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga instituição
religiosa, Jesus não propõe nenhuma forma de poder para sua comunidade; Ele
quer apenas que essa seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo
bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo
código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado em seu nome.
Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo
anterior (cf. 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu
domínio também à cegueira, por isso, “não entenderam o que Jesus queria dizer”
(v. 6) com essa comparação ou parábola. Diante da cegueira e da falta de
compreensão de seus interlocutores (cf. 9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de
modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta (v. 7). De
fato, como único mediador entre a humanidade e o Pai, Ele pode mesmo
reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois é Ele e seu
Evangelho o critério único de pertença ao Pai. A denúncia aos que se auto
intitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e
bandidos e anunciar o fim do antigo sistema (v. 8); esses estão sendo
desmascarados e caindo em descrédito, à medida em que a voz de Jesus vai sendo
ouvida, através do Evangelho.
À medida em que repete sua autoafirmação como a
porta, (v. 9), Jesus ressalta a falência da instituição religiosa. Como o
Evangelho e a lei são inconciliáveis, “só será salvo quem entrar por Ele”;
somente assim alguém poderá “entrar e sair” encontrando a pastagem necessária
para a vida. Seu programa de vida é marcado pela liberdade e só será plenamente
livre quem ouvir sua voz, passando por Ele e vivendo a proposta de vida contida
no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e,
ao mesmo tempo, oposição à lei e ao sistema que aprisionava e até matava. A
pastagem que se encontra quando passa por Ele é a liberdade e a vida plena e
abundante que Ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade,
a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona e da
qual a lei privava o ser humano. Não se trata de uma vida para o além, mas da
realização plena do ser humano em sua vida neste mundo.
Podemos
dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o
único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de normas e
doutrinas pré-concebidas mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas
comunidades quando não há segregação, nem discriminação e nem exclusão. Somos
comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam
está de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente.
Dia 26
Cada ser
humano é único.
Nessa
unicidade, todos se sentem solitários.
No
entanto, é importante avaliar se deixa sua solitude se tornar solidão ou se
permite que a solidão se instale em sua vida.
Este
sentimento faz que as pessoas se agarrem umas às outras com desespero.
Em
contrapartida, a solitude permite que os demais sejam considerados em sua
originalidade pois cada pessoa tem em seu interior uma parte íntima, secreta,
que precisa ser respeitada.
Quando faz
escolhas sábias, você encontra a solitude em seu coração, onde cresce o amor,
jamais a solidão.
“Não se perturbe o vosso coração!
Credes em
Deus, crede também em mim”. (Jo 14,1)



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