22 fev - Rezemos e curvemo-nos resignados diante da vontade do Deus Providência. (C 51). São José Marello
Mateus 4,1-11
Jesus foi conduzido ao
deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo. Ele jejuou durante
quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. O tentador aproximou-se e
disse-lhe: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em
pães!" Ele respondeu: "Está escrito: 'Não se vive somente de pão, mas
de toda palavra que sai da boca de Deus'". Então, o diabo o levou à Cidade
Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: "Se és Filho de
Deus, joga-te daqui abaixo! Pois está escrito: 'Ele dará ordens a seus anjos a
teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'".
Jesus lhe respondeu: "Também está escrito: 'Não porás à prova o Senhor teu
Deus'!" O diabo o levou ainda para uma montanha muito alta. Mostrou-lhe
todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: "Eu te darei tudo
isso, se caíres de joelhos para me adorar". Jesus lhe disse: "Vai
embora, Satanás, pois está escrito: 'Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele
prestarás culto'". Por fim, o diabo o deixou, e os anjos se aproximaram
para servi-lo.
REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DA QUARESMA – MATEUS 4,1-11 (ANO A) 22 fev 2026
Após uma sequência de seis domingos, a liturgia interrompe o tempo comum para viver e celebrar um de seus tempos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas, com o convite à conversão, em preparação à Páscoa do Senhor. Hoje, celebramos o primeiro domingo deste tempo especial. Como acontece todos os anos, o evangelho do primeiro domingo da Quaresma compreende a narrativa das tentações pelas quais passou Jesus no deserto, logo após ser batizado, como preparação para o início de seu ministério. Esse é um episódio presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), um dado que confirma a sua grande importância para as primeiras comunidades cristãs. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, nós lemos a versão das tentações do Evangelho de Mateus – 4,1-11. Se trata de um texto bastante rico, muito bem elaborado, tanto do ponto de vista literário quanto teológico, com uso abundante de linguagem simbólica.
Marcado por forte simbologia, o evangelho de hoje
corre o sério risco de ser mal compreendido, devido a nossa tendência
equivocada de considerar os evangelhos como livros de crônicas exatas da vida
de Jesus, esquecendo o aspecto simbólico que predomina neste tipo de relato.
Por isso, é necessário, a nível de introdução, fazer algumas considerações
importantes para uma adequada compreensão. A fonte original deste relato é o
Evangelho de Marcos, e não dá nenhum detalhe sobre o nível e a modalidade das
tentações. Marcos apenas diz que «Jesus esteve no deserto durante quarenta
dias sendo tentado por Satanás» (Mc 1,13); dessa informação simples e
vaga, o evangelista Mateus, com muita criatividade, e atendendo às necessidades
da sua comunidade, ilustrou a história que lemos hoje na liturgia, como fez
também Lucas (cf. Lc 4,1-13).
A nível de contexto, é imprescindível recordar que
o relato das tentações segue, imediatamente, ao relato do batismo – cf. Mt
3,13-17 – e, por isso, ambos estão intrinsecamente relacionados. Ainda antes do
batismo, João tinha anunciado Jesus como o Messias, em sua pregação. Ora, no
batismo o Espírito Santo desceu sobre Jesus e, do céu, o próprio Pai o declarou
como o seu “Filho Amado”. Logo, o principal objetivo do evangelista com
este episódio de hoje é apresentar o comportamento de Jesus como o enviado de Deus,
ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior
ao texto de hoje. E ele vai mostrar que Jesus permanecerá fiel aos propósitos
do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino,
sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo diabo. Portanto,
esse é um texto programático para a comunidade cristã, pois indica como deve
agir e resistir ao mal quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo, missão comum a todos os batizados e batizadas.
Iniciamos nossa reflexão considerando os dois
primeiros versículos do texto: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para
ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites,
e, depois disso, sentiu fome» (vv. 1-2). Ora, o mesmo Espírito Santo
que desceu em forma de pomba (cf. Mt 3,16) no batismo, acompanhará Jesus em
todos os seus passos e ações; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e
essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito Santo, e não
apenas quando Ele vai ao deserto. Aqui, o deserto não é um indicativo
geográfico, mas teológico. A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que
ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e,
portanto, estará sujeito aos mesmos riscos pelos quais Israel passou, desde a
saída do Egito até a conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do
nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez
que Ele, mesmo sendo o “Filho Amado” de Deus, é verdadeiramente ser humano, assumiu
a humanidade em todas as suas dimensões. Embora o deserto evoque a provação e a
dificuldade, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por
isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a
necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (cf.
Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Uma vez que o deserto também é sinônimo de
provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida
conduzida pelo Espírito, não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa
blindada. O autor das tentações é o diabo (em grego: διαβολος –
diábolos), palavra grega que literalmente significa aquele que divide
e atrapalha, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao
caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico, mas todo
percalço posto diante do projeto de Deus; muitas vezes é a própria estrutura
das comunidades que teimam em ofuscar o Evangelho.
Se o deserto não é um dado geográfico, assim também
os “quarenta dias” que Jesus lá passou não podem ser considerados como um dado
cronológico exato. Mais uma vez, trata-se de um dado teológico, e de grande
relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo
no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta
noites (cf. Gn 7,4.12.17); Moisés passou quarenta dias sobre a montanha, antes
de receber a Lei (cf. Ex 32,28); a caminhada do povo de Deus no deserto durou
quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade e infidelidade, idolatria e
prova (Ex 44,28); e o profeta Elias caminhou durante quarenta dias rumo ao
monte Horeb (cf. 1 Rs 19,8). Além de evocar acontecimentos e personagens
importantes da história de Israel, esse número quer dizer também uma etapa completa,
ou seja, uma vida inteira, uma geração (quarenta anos). Quando se trata de
dias, é o tempo necessário para assimilar um grande ensinamento. Portanto,
significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim, é também a
vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos e cristãs a uma vida
vigilante sem, jamais, cair nos comodismos que podem surgir. Quer dizer que a
Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de
conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder.
A primeira tentação diz respeito à maneira de
relacionar-se com as coisas; a lógica do império incentivava o consumo e a
satisfação dos desejos, o que Jesus rejeita. Eis o que diz a primeira
tentação: «Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: ‘Se és o Filho
de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães! Mas Jesus respondeu:
‘Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca
de Deus’» (vv. 3-4). Embora faminto, Jesus percebe que não é suficiente
saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais do que pão. Por
isso, com base na Escritura (cf. Dt 8,3), Ele não dispensa o pão, mas diz que o
homem não pode viver “somente” dele. A vida digna e plena não depende somente
do alimento material, mas de todos os valores do Reino contidos na “Palavra que
sai da boca de Deus”, que será explicitada no dec0rrer do seu
ministério. O messianismo da época previa um messias milagreiro, ao
que Jesus se opõe radicalmente; Ele não veio ao mundo para resolver os problemas
de maneira fácil e cômoda, como queriam e ainda querem muitos grupos e
movimentos religiosos. Por sinal, essa é única vez em que o evangelista Mateus
dá ao diabo o nome de “tentador” (em grego: πειράζων –
peirazón), uma derivação do verbo tentar (em grego: πειράζω –
peirázo), o mesmo verbo que ele aplica aos líderes religiosos, especialmente os
fariseus, que põe Jesus à prova durante o evangelho (16,1; 19,3;
22,18.35).
A segunda tentação chama a atenção para a relação
com Deus: «Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a
parte mais alta do Templo, e lhe disse: ‘Se és Filho de Deus, lança-te daqui
abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e
eles te levarão nas mãos, mas para que não tropeces em alguma pedra’. Jesus lhe
respondeu: ‘Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’» (v.
5-7). Ora, no templo de Jerusalém, onde a religião dizia que Deus morava,
o que mais se podia esperar era milagres! Jesus resiste à tentação do milagre fácil,
rejeitando o Deus vendido pelo templo; o seu Deus não é aquele que distribui
anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus “filhos bons” e
castigar os maus, como afirmava a religião da época, não é o Deus das visões e
aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das
coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano.
A terceira tentação diz respeito à relação com o
próximo, sobretudo quanto à maneira de conceber e exercer o
poder: «Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto.
Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, E lhe disse: ‘Eu te darei
tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar’. Jesus lhe disse:
‘Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente
a ele prestarás culto’» (vv. 8-10). A lógica religiosa-imperial
incentivava a busca constante por prestígio e poder e, consequentemente, de
domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um
messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os ‘inimigos’ de
Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e
sofredor. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que
esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez
que impede a concretização de uma fraternidade universal. O diabo apresenta a
Jesus todos os reinos do mundo; significa que há muitos, enquanto Jesus falará
de um único Reino, o Reino dos Céus, como sinal de unidade e fraternidade. A
multiplicidade de reinos do mundo significa a falta de concórdia e harmonia,
decorrente das formas tirânicas e ilegítimas do exercício do poder.
Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como
meio de exercício de sua autoridade, e fruto de suas convicções de Filho Amado
do Pai. Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o
seu amor chegue, através dos seus seguidores e seguidoras, em todos os confins
da terra e, assim, que a humanidade seja transformada por esse amor. É claro
que o evangelista não descreve o diabo como dono do mundo; mas está denunciando
que o poder exercido até então, em todos os reinos, marcado pela exploração,
injustiça e opressão, segue a lógica diabólica, à qual o Evangelho se contrapõe
com o Reino dos Céus anunciado por Jesus, marcado pelo amor, pelo serviço, a
justiça e a fraternidade.
Na conclusão, diz o evangelista: «Então o
diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus» (v.
11). O diabo se afastou porque não encontrou em Jesus um aliado. Devido à
sua comunhão de amor com o Pai, Jesus sabia discernir e fazer opção pelo lado
do amor e da justiça, inclusive, foi para isso que o Pai lhe enviou ao mundo.
Ao falar do serviço dos anjos a Jesus, o evangelista emprega um verbo que
significa especificamente o serviço de mesa, ou seja, o serviço do pão. É esse
o sentido do verbo grego “diakonêo” (διακονέω), do qual deriva o termo diácono (em
grego: διάκονος –
diáconos). Ao invés de comer um pão fruto de uma mera demonstração de poder,
Jesus recebe o pão como dom gratuito; e aquilo que é dom deve ser partilhado,
como ele mesmo fará, seja partilhando o pão com as multidões famintas (cf. Mt
15,32-39), seja doando a sua própria vida como alimento (cf. Mt 26,26-30).
As três tentações ou provas relatadas no evangelho
de hoje são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se
com as coisas, com Deus e com o próximo. São como uma parábola da vida de
Jesus. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política,
e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino dos Céus
como uma sociedade alternativa a todas formas de organização social até então
experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso,
parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e
Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus,
sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo.
A resistência de Jesus, recorrendo sempre à
Palavra de Deus é uma indicação para as comunidades cristãs de todos os tempos:
a perseverança e a fidelidade ao projeto de Jesus dependem essencialmente da
atenção à Palavra. Ao mesmo tempo, há uma clara denúncia ao perigo do uso
fundamentalista das Escrituras e tradições religiosas, pois também os
argumentos do diabo são fundamentados na Palavra de Deus. É um alerta de que o
mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas
muito religiosas.
Dia 22
É preciso conquistar a felicidade dia a dia, minuto a minuto, meã a mês, ano a
ano; enfim, por toda a vida.
Esse
sentimento é encontrado principalmente na paz de coração.
Mas, para
chegar à felicidade, é preciso lutar muito, transpor obstáculos, possuir
obstinação, vencer barreiras e, em especial, ter paciência.
Esperar
sempre, com fé e perseverança, contando com dias melhores.
Cabe a
você conquistar a felicidade passo a passo.
“O
instruído na palavra encontrará a felicidade; quem espera no Senhor, esse é
feliz.” (Pr 16,20).
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