EVANGELHO DO DIA 02 AGOSTO 2026 - 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM
02 agosto - Tu deverás ficar contente com o papel que o Senhor te conceder aqui na terra, com a confiança de que, graças à ajuda divina, te será fácil desempenhá-lo de maneira que possas merecer uma grande recompensa no Céu. (248). São José Marello
Evangelho (Mateus 14,13-21)
Proclamação
do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus.
—
Glória a vós, Senhor.
Naquele
tempo, quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para
um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das
cidades e o seguiram a pé. Ao sair da barca, Jesus viu uma grande multidão.
Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. Ao entardecer,
os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a
hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados
comprar comida!” Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora.
Dai-lhes vós mesmos de comer!” Os discípulos responderam: “Só temos aqui
cinco pães e dois peixes”. Jesus disse: “Trazei-os aqui”. Jesus mandou que as
multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães,
e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. Todos
comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram,
recolheram ainda doze cestos cheios. E os que haviam comido eram mais ou menos
cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
—
Palavra da Salvação.
—
Glória a vós, Senhor.
Reflexão para o 18º Domingo do Tempo
Comum – Mateus 14,13-21 (Ano A) 2 agosto 2026
O evangelho que a liturgia propõe neste domingo, o
décimo oitavo do tempo comum, corresponde ao primeiro relato do episódio
conhecido popularmente como “multiplicação dos pães” no Evangelho segundo
Mateus – Mt 14,13-21. De todos os gestos de Jesus considerados milagres, esse é
o único relatado nos quatro evangelhos, com seis versões ao todo, já que em
Mateus e Marcos aparece duas vezes (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,30-44; 8,1-9).
Esses dados indicam a importância que o episódio teve para as primeiras
comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e
nem fantasiado; por isso, preferiram narrá-lo integralmente várias vezes,
embora cada uma das versões apresente certas particularidades.
Hoje, lemos a primeira versão de Mateus e, como
sempre, iniciamos considerando o seu contexto. O texto localiza-se praticamente
na metade do evangelho; mais do que importância, esse dado indica que Jesus já
realizou muita coisa, o seu ministério já estava bem avançado, basta olhar um
pouco para trás e perceber isso: três dos cinco discursos já foram proferidos
(Mt 5–7; 10; 13), os discípulos já foram enviados em missão, muitas curas já
foram realizadas. Portanto, mesmo que não compreendessem totalmente e nem
aceitassem completamente o que Jesus proponha, a sua mensagem se popularizava
cada vez mais, e as multidões que o seguiam atestam isso. Logo, tornava-se cada
vez mais necessário que Jesus deixasse clara a natureza do seu messianismo, que
não correspondia aos anseios nacionalistas e triunfalistas da época. Por isso,
Jesus procurava cada vez mais evitar atitudes que pudessem insinuar
triunfalismos em seu ministério. Tudo isso aponta para o cuidado com que esse
episódio chamado de “multiplicação dos pães” deve ser interpretado.
O contexto imediato é fornecido pelo próprio texto,
na versão litúrgica, que recorda o evento anteriormente narrado, a morte de
João, o Batista, por ordem de Herodes: “Quando soube da morte de João Batista,
Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Apesar
das diferenças, era inegável a proximidade entre Jesus e João Batista. Jesus
nutria grande afeto por ele, mesmo não correspondendo ao ideal de messias
violento e justiceiro que João tinha anunciado (Mt 3,1-12). Inclusive, o
reconheceu como o maior entre os nascidos de mulher e como profeta (Mt 11,7-14).
Jesus reconhecia a continuidade entre a sua missão e a de João, o seu mentor,
não obstante as divergências. Por isso, inevitavelmente, a morte de João mexeu
com Jesus, ainda mais pela forma cruel como aconteceu. Daí, a necessidade de
retirar-se, não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento
de recolhimento.
O lugar deserto e afastado seria ideal para esse
recolhimento que, certamente, seria marcado pela oração profunda, pela reflexão
e, talvez, até pelo choro. Porém, não conseguiu ficar sozinho com seus
discípulos porque “quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o
seguiram a pé” (v. 13b). O movimento das multidões em busca de Jesus demonstra
o quanto ele já estava conhecido e o bem que ele fazia. As multidões o seguem
porque ele tinha respostas para as suas necessidades. Abandonadas e exploradas
pelas lideranças religiosas e políticas, as multidões recebiam atenção e
cuidado de Jesus (Mt 9,36–10). O seu olhar era diferente, marcado pela
compaixão: “Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de
compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (v. 14). As multidões até se
anteciparam, chegando primeiro ao lugar deserto. Ao vê-las, Jesus não foge e
nem as expulsa, mas se enche de compaixão. Numa ocasião anterior, o evangelista
disse que ele sentiu compaixão, aos ver as multidões; agora, ele diz que Jesus
encheu-se de compaixão. Quer dizer que a compaixão ocupa todo o ser de Jesus,
faz parte da sua essência.
Compaixão significa um amor visceral; é um comover-se
no mais profundo do ser – as vísceras ou entranhas – que resulta em ação
concreta de libertação. Não se trata de um mero sentimento, mas de ação
libertadora; é nisso que consiste a misericórdia de Deus, cuja expressão mais
concreta é a própria pessoa de Jesus. Por isso, ele “curou os que estavam
doentes”. Por doentes, o evangelista emprega um termo (em grego: arostos – άρρωστος) que compreende todas as pessoas frágeis, e não
apenas os doentes fisicamente. São todas as pessoas destinatárias privilegiadas
da misericórdia de Deus: doentes, aflitas, pobres, abandonadas, exploradas.
Como o Evangelho de Jesus é um programa de vida completo, que contempla a vida
em todas as suas dimensões, todas essas classes de pessoas são as primeiras
contempladas. Por isso, a reação de Jesus ao ver essas pessoas foi encher-se de
compaixão.
Diferente de Jesus foi o que os discípulos
sentiram: “Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram:
‘Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para
que possam ir aos povoados comprar comida!” (v. 15). Pela referência ao
entardecer, supõe-se muita coisa já realizada. Certamente, muito contato físico
de Jesus com o povo, muito toque, muita escuta e muitas palavras proferidas;
tudo ao contrário de quem estava procurando ficar sozinho. A reação dos
discípulos parece ser de preocupação e cuidado com Jesus, mas na verdade é de
indiferença e pouco compromisso com as multidões. A tendência deles é lavar as
mãos diante das necessidades dos outros. Aconselham Jesus a mandar as multidões
embora e que cada um “se virasse” para conseguir o alimento necessário.
Apesar do tempo de convivência e aprendizado, os
discípulos ainda não tinham absorvido a mentalidade de Jesus; ainda não tinham
assimilado a lógica da partilha e da solidariedade. Diante disso, a resposta de
Jesus é praticamente uma repreensão: “Jesus, porém, lhes disse: ‘Eles não
precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16). Como se vê, Jesus
compromete os discípulos. Ao invés de lavar as mãos diante das necessidades dos
outros, os seus discípulos devem sentir-se responsáveis. A comunidade cristã
não pode assistir indiferente ou passivamente à fome no mundo. Biblicamente, a
fome é também uma doença que deve ser curada, conforme ensinou Jesus, ao
ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. A mensagem de Jesus é
um programa de vida que contempla também a dimensão material, inegavelmente.
Portanto, saúde e pão devem ser prioridades na comunidade cristã.
Talvez indignados ou envergonhados com a
advertência de Jesus, “Os discípulos responderam: ‘Só temos aqui cinco pães e
dois peixes” (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa,
provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. A
quantidade era pequena, mas total, era tudo o que tinham. O número sete, como
resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade. Logo, não se trata
de números reais, mas de simbologia. Independentemente da quantidade, é como se
os discípulos dissessem a Jesus que tudo o que tinham era insuficiente para o
grande número de pessoas que estavam ali. Porém, Jesus não se importa com a
quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que tem: “Jesus disse:
‘Trazei-os aqui” (v. 18). O problema começa a ser solucionado aqui, quando
Jesus pede que os discípulos coloquem a disposição tudo o que têm, apesar de
pouco. É isso o que Jesus espera das comunidades de todos os tempos. O pouco
que cada um possui deve ser colocado a serviço de todos e, assim, o que é pouco
se torna muito. Quando cada um apresenta o seu pouco, é premissa de fartura.
É interessante perceber que os discípulos recebem a
responsabilidade de curar a fome, o que se faz pela partilha, mas tudo deve
passar por Jesus. Primeiro, devem a apresentar a ele o que têm; nesse gesto
está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado
à partilha. Na continuação, diz o evangelista que “Jesus mandou que as
multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e
os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (v. 19).
Como se vê, Jesus toma a iniciativa, e age como verdadeiro pastor, ao contrário
dos líderes religiosos e políticos que tinham explorado e abandonado as
multidões (Mt 9,36). Inclusive, todo este relato tem como pano de fundo o Sl
22(23), no qual o salmista reconhece Deus como o pastor que alimenta o povo e o
faz descansar num prado verdejante (grama), como aqui. Os gestos de Jesus com
os pães e os peixes antecipam a eucaristia, mas vão muito além de um rito:
olhar para o céu – abençoar – (re)partir – dar/distribuir. São os passos que a
comunidade cristã não pode parar de dar, não apenas como rito semanal, mas como
vivência cotidiana, sobretudo onde e quando há multidões famintas de pão.
Como resultado da partilha, aliás, de todo um
processo, o resultado foi este: “Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos
pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (v. 20). Recordemos
que houve todo um processo, o que não seria necessário caso se tratasse de um
puro gesto sobrenatural de Jesus. De seu olhar compassivo, Jesus conferiu
responsabilidade aos discípulos, provocou neles a disposição de colocar em
comum tudo o que tinham, um gesto que inevitavelmente motivaria também outras
pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, até a partilha que deixou
todos satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade. A abundância é
gerada quando ninguém considera somente seu o que possui, mas oferece, como
dom, às necessidades do próximo. E a primeira necessidade do ser humano é o
alimento, o pão de cada dia. No final, ainda sobrou, o que foi tudo recolhido.
O alimento é sempre um dom de Deus, e o que é dom de Deus não pode ser
desperdiçado. O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de
Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade
recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada,
tem alimento para todos e todas. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma
prática constante na comunidade.
No final, a referência ao número dos que se
alimentaram, o que também é um número simbólica que significa uma grande
quantidade: “E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem
contar mulheres e crianças” (v. 21). Entre o número inicial de dons disponíveis
para a partilha e a multidão alimentada há uma enorme diferença. Com isso, o
evangelista quer ensinar que os resultados são sempre surpreendentes quando se
põe em prática o que Jesus ensinou, e reforça o convite para a comunidade não
ter medo de partilhar o que tem. O último dado considerado é a menção do
evangelista às mulheres e crianças, o que reforça ainda mais a importância da
partilha, pois significa que havia uma multidão incontável, e que a partilha
gera sempre abundância. Somente Mateus faz essa observação. Apesar de sutil, é
um aceno à inclusão. Mulheres e crianças eram consideradas categorias
insignificantes, na época. O evangelista acena, com isso, que a comunidade
cristã é aberta a todos e todas.
O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve
ter prioridades irrenunciáveis, como encontrar solução para o problema da fome,
por exemplo. A comunidade não pode esperar ter condições necessárias para viver
o programa do Reino, mas é ela mesma que tem que criar tais condições,
encontrando dentro de si mesma a solução para os seus problemas, vencendo o
egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não
tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, mas, no texto
específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome
de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso!
Dia 02
“Como meu
Pai me ama, assim também eu vos amo” (Jo 15,9).
O preceito
de Jesus é o amor.
O amor de
Deus se manifestou entre os seres humanos, e esse sentimento deve se propagar
aos irmãos a partir de cada pessoa.
Quem
conhece e ama a Deus cultiva as mesmas atitudes de Jesus, que viveu plenamente
esse sentimento a partir de sua doação aos pobres, doentes, marginalizados e
excluídos.
Jesus
demonstrou a intensidade de seu amor não só com palavras, mas também com gestos
concretos.
“Permanecei
no meu amor.
Se
observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu
observei o que mandou meu Pai e permaneço no seu amor!”
(Jo
15,9B-10).



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