EVANGELHO DO DIA 24 MAIO 2026 - PENTECOSTES
24 maio - Ó Maria, fazei-me todo vosso, para que eu seja todo de Jesus. (S 233). São José Marello
EVANGELHO DO DIA - SOLENIDADE DE PENTECOSTES
João 20,19-23
"Ao
anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, os discípulos estavam reunidos,
com as portas fechadas por medo dos judeus. Jesus entrou e pôs-se no meio
deles. Disse: "A paz esteja convosco". Dito isso, mostrou-lhes as
mãos e o lado. Os discípulos, então, se alegraram por verem o Senhor. Jesus
disse, de novo: "A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou também eu vos
envio". Então, soprou sobre eles e falou: "Recebei o Espírito Santo.
A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão
retidos"."
REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE
PENTECOSTES
João 20,19-23 ano A – 24 maio 2026
O evangelho da Solenidade de Pentecostes é sempre o
mesmo, independentemente do ciclo litúrgico vigente: Jo 20,19-23.
Trata-se do relato da primeira manifestação do Senhor Ressuscitado aos seus
discípulos, ao anoitecer do primeiro dia da semana, ou seja, o domingo mesmo da
ressurreição. Inclusive, esse texto já foi lido na liturgia dominical deste
tempo pascal, como parte do evangelho do segundo domingo, como também acontece
todos os anos. Naquela ocasião, no entanto, este trecho fora lido como parte de
uma sequência maior: Jo 20,19-31, que compreende a manifestação do Ressuscitado
também no domingo seguinte à ressurreição, ou seja, «oito dias depois»
(Jo 19,26). Portanto, embora estejamos de fato há cinquenta dias da Páscoa, o
evangelho de hoje nos remete ao dia mesmo da ressurreição.
Pentecostes era uma das três maiores festas do
calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da Páscoa e das tendas.
Era celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Na Bíblia hebraica é chamada de
“festa das semanas” (שָּׁבֻעוֹת – shavuot), pois contavam-se sete
semanas após a Páscoa,
mais um dia, totalizando cinquenta dias (7x7+1=50). Por isso, recebeu o nome de
“Pentecostes” (em grego: πεντηκοστή – pentecostê) a partir da dominação grega, cujo significado é simplesmente quinquagésimo dia (Tb
2,1; 2Mc 12,32). O fato de ser o resultado numérico da operação 7x7 indica a
ideia de plenitude que essa festa transmite: o número perfeito – sete –
multiplicado por ele mesmo. Quer dizer que Pentecostes é a festa da plenitude
da Páscoa, tanto para a mundo hebraico quando para a fé cristã. Como todas as
festas judaicas, também pentecostes tem suas origens ligadas à vida agrícola do
povo: era a festa da colheita. Os peregrinos iam a Jerusalém agradecer pela
colheita, levando os melhores grãos e frutos da terra como oferta, em gratidão
a Deus.
Com o passar do tempo, essa festa perdeu sua
relação com a agricultura, e foi ganhando um novo significado, com uma
conotação mais religiosa e histórica. O motivo da celebração passou, então, a
ser o agradecimento a Deus pelo dom da Lei ao seu povo. Na época de Jesus e dos
apóstolos, esse novo sentido já estava consolidado: os judeus de todas as
partes do mundo, conforme as condições econômicas, iam a Jerusalém, para
agradecer a Deus pelo dom da Lei, transmitida através de Moisés. Lucas, autor
dos Atos dos Apóstolos, se serve desse contexto e faz coincidir o envio do
Espírito Santo com a festa judaica de Pentecostes, como artifício literário e
teológico, para ensinar às suas comunidades que a nova lei é o Espírito Santo,
o dom pascal por excelência. Com isso, ele ensina que, para permanecer fiel a
Jesus e à sua mensagem, a comunidade cristã já não necessita das prescrições da
Lei de Moisés; deve apenas estar sensível e aberta aos dons do Espírito Santo.
Por outro lado, o autor, o evangelista João fazem
de tudo para que os referenciais da sua comunidade não coincidam com os
esquemas litúrgicos judaicos. Para ele, as grandes festas dos judeus em
Jerusalém sempre foram muito conflituosas para Jesus; eram momentos de
confronto e ameaça (2,13ss; 5,1.18; 7,1ss; 10,31; 11,56), além de sinônimo de
exploração e comércio. Por isso, ele situa a doação do Espírito Santo por Jesus
aos discípulos, no dia mesmo da ressurreição. Embora a Igreja tenha adotado o
esquema cronológico de Lucas, a perspectiva joanina tem mais sentido e responde
melhor às necessidades dos discípulos, como mostra o Evangelho de hoje: «Ao
anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos
judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e,
pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco!» (v. 19). Ora,
amedrontada e sem poder de ação, essa comunidade não teria condições de esperar
cinquenta dias para receber o Espírito Santo. É somente pela força do Espírito
Santo que as portas são abertas e os dons comunicados pelo Ressuscitado podem
ser experimentados por todos.
A comunidade dos discípulos estava em crise,
profundamente abalada. Até aquele momento, somente Maria Madalena e o Discípulo
Amado tinham convicção da ressurreição (Jo 20,8.16-18). A morte de Jesus na
cruz foi um alerta para os discípulos: quem continuasse propagando ideias como
as dele, poderia terminar da mesma forma. Por isso, estavam as portas
trancadas, devido ao medo. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das
autoridades, e não de todo o povo; é típico de João usar o termo “judeus”
referindo-se às autoridades de Jerusalém (Jo 9,22; 12,42; 16,16). Apesar do
medo, o fato de estarem reunidos é um sinal de esperança; significava que não
tinham perdido completamente as esperanças; o ideal que os unia não tinha ainda
se apagado. Porém, não poderiam continuar naquela situação, ou seja, acuados
pelo medo. Ora, o medo impede a missão, as portas fechadas bloqueiam o anúncio
da Boa Nova. Enfim, o medo é falta de experiência com o Ressuscitado.
Ao medo dos discípulos, o Ressuscitado responde com
o dom da sua paz. Aqui, a paz não significa simplesmente a saudação típica do
povo judeu, o famoso “shalom” (שָׁלוֹם). Inclusive, a
tradução correta da expressão não é “a
paz esteja convosco”,
como está no texto litúrgico, mas “paz a vós”,
sem a forma verbal “esteja”. O Ressuscitado não transmite um desejo de paz, mas
traz a paz efetivamente, faz a paz acontecer. E quem faz experiência com Ele já
tem a paz dentro de si, embora seja uma paz inquieta, como ele mesmo viveu. E
imediatamente os discípulos sentiram a paz neles e entre eles, pois passaram do
medo à alegria (v. 20). A paz é plenitude de vida e equilíbrio, o bem-estar da
pessoa em todas as suas dimensões, condição indispensável para a felicidade. Jesus
comunica a sua paz estando no meio, quer dizer, no centro da comunidade. Para
que os dons do Ressuscitado sejam realmente acolhidos, é necessário que a sua
centralidade na comunidade seja respeitada; isso vale para todos os tempos e
lugares. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é
necessário, antes de tudo, que no centro do seu existir esteja o Ressuscitado e
somente Ele, pois é Ele o único ponto de referência e fator de unidade. Por
isso, ao se manifestar, o Ressuscitado aparece sempre no meio.
Na continuidade da experiência, diz o texto que
Jesus «mostrou-lhes as mãos e o lado» (v. 20a). Ao mostrar as mãos e o
lado, Jesus mostra a continuidade entre o Ressuscitado e o Crucificado; se
trata da mesma pessoa. O Ressuscitado traz as marcas do Crucificado, porque
cruz e glória não se separam. Nas mãos e no lado de Jesus está a sua identidade
de quem viveu para servir e amar. As mãos são símbolo e recordação do serviço e
de todo o bem que Jesus fez: são as mãos que tocaram em leprosos, mesmo sendo
proibido (Mc 1,40), mãos que deram carinho a crianças (Lc 18,15-16; Mt
19,13-15), mãos que abriram olhos de cegos (Jo 9,6), mãos que curaram enfermos
e expulsaram demônios (cf. Lc 4,40; 13,13), mãos que lavaram os pés dos
discípulos (Jo 13,1-12); enfim, são mãos que promoveram a vida e combateram o
mal.
As marcas da cruz não apagaram a força das mãos de
Jesus. Essas mãos continuam à disposição da comunidade, e a comunidade, por sua
vez, tem a missão de fazer no mundo o mesmo que aquelas mãos do Ressuscitado
fizeram, ou seja, servir infinitamente e sem distinção. Também o lado, ou seja,
o peito aberto, tem o mesmo significado de continuidade: é o mesmo coração com
o qual Ele amou até o fim (Jo 13,1), e continua amando da mesma forma. As mãos
e o lado de Jesus são, portanto, a síntese da sua vida, da sua mensagem e da
sua práxis. Ele doa o Espírito Santo aos discípulos para que suas mãos e o seu
coração continuem presentes no mundo servindo e amando de modo ainda mais
eficaz. Por isso, «os discípulos se alegraram por verem o Senhor» (v.
20b). Como fruto da paz transmitida pelo Ressuscitado, a alegria deve ser
também uma das características da comunidade que deve viver para amar e servir.
A paz como bem-estar do ser humano é novamente
oferecida: «novamente Jesus disse: A paz esteja convosco» (v. 21a).
Novamente, não é um desejo, mas a afirmação de um dom já presente, já
verificável. A passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples
euforia, por isso a paz é doada novamente para equilibrar a comunidade. Aqui, a
paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena;
é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas. Tendo
plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia,
como fora ele mesmo enviado pelo Pai: «Como o Pai me enviou, também eu vos
envio» (v. 21b). É importante recordar que, embora cada evangelista narre
as aparições do Ressuscitado à sua maneira, todos os quatro recordam um
elemento comum: o envio missionário. E trata-se de um elemento
determinante para a construção da identidade da comunidade cristã, a Igreja.
Não há seguimento de Jesus sem disposição para a missão. A Igreja nasceu para
estar em saída. E a fonte da missão é o amor do Pai, o que confere à comunidade
cristã uma responsabilidade ímpar: fazer no mundo o mesmo que Jesus fez, pois
ele está enviando seus discípulos de todos os tempos conforme fora enviado pelo
Pai.
Como Jesus tinha prometido o Espírito Santo aos
discípulos na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26), eis que a promessa é
cumprida: «E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o
Espírito Santo» (v. 22). Aqui, o evangelista usa o mesmo verbo empregado no
relato da primeira criação do ser humano: «O Senhor modelou o ser humano com
a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano
tornou-se vivente» (Gn 2,7). Com isso, o evangelista quer dizer que está
sendo realizada uma nova criação. O verbo soprar (em grego: έμφυσάω – emfysáo)
significa doação de vida. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e,
nessa, a humanidade inteira. Ao receber o Espírito, a comunidade se torna
também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade
alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver
e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro e fundamento,
colocando à disposição da humanidade mãos e coração para servir e amar
continuamente. O Espírito Santo é força dinâmica e vivificadora; é movimento.
Logo, a Igreja não pode parar no tempo, não pode acomodar-se.
Na sequência, o Ressuscitado recorda os efeitos
principais do Espírito Santo na vida da comunidade, conferindo-lhe uma grande
responsabilidade: «A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a
quem não perdoardes, eles lhes serão retidos» (v. 23). Por muito tempo,
esse versículo foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da
penitência ou confissão. No entanto, não é um sacramento o que Jesus está
instituindo, tampouco conferindo um poder aos seus discípulos para determinar
se um pecado pode ser perdoado ou não. O que perdoa mesmo os pecados é o amor
infinito de Deus que Jesus revelou. Logo, ficam pecados sem perdão quando os
discípulos e discípulas de Jesus deixam de comunicar esse amor. Em outras
palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade, ou
seja, quando essa deixar de produzir os frutos que Jesus pediu (cf. Jo
15,1-17). Ora, Jesus envia os discípulos como Ele mesmo fora enviado pelo Pai
(v. 21), confiando-lhes a continuidade da sua própria missão. E a missão de
Jesus foi sintetizada pelo Batista como “tirar o pecado do mundo” (Jo 1,29).
Tirar o pecado do mundo significa promover intensamente o bem até eliminar o
mal pela raiz, o que só se faz através do amor, com ousadia profética. Agora, é
Jesus quem confia à sua comunidade de discípulos essa responsabilidade. Logo,
os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo
mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo.
É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta,
fazendo essa perder o medo e insegurança. Somente uma comunidade que tem o
Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz e animada
pelo Espírito. São essas as condições para que a alegria do Evangelho seja, de
fato, anunciada! Deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, a comunidade
atualiza e prolonga, no tempo e no espaço, a missão única do próprio Jesus de
revelar o amor de Deus a todas as pessoas.
Dia 24
Sinta-se
realizado com seu trabalho.
Se
desempenhá-lo com prazer, vai descobrir quantas alegrias e realizações pessoais
suas atividades lhe trarão.
Considere
seu trabalho em dom de Deus, pois nada é insignificante demais quando feito com
amor.
O trabalho
dignifica a vida.
“Nada é
melhor para alguém do que comer e beber, e exibir os frutos de seus trabalhos:
e vejo que isso vem da mão de Deus”.(Ecl 2,24).



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